| Posso
afirmar que conheço bem o centro
de Nova York. Afinal, foram vinte
e cinco anos caminhando e descobrindo,
a cada dia, uma rua, uma novidade
e um segredo da mais famosa cidade
do mundo.
A minha caminhada matinal: da Park
Avenue e Rua 65 até a Rua 46
(The Little Brazil) com a Quinta Avenida.
Às vezes, ia pela Park, às
vezes, descia a Madison Avenue, mas
o meu trajeto predileto e definitivo
era pela Quinta Avenida, tropeçando
em famosos, astros e estrelas.
Caminhava até a 61, passava
pelo Copacabana Night Club, chegava
às calçadas do Pierre
hotel, atravessava, pegava um pedacinho
do inicio do Central Park. Do lado
direito o famoso Plaza hotel, do esquerdo,
a mais badalada loja de brinquedos
do mundo.
Aos domingos e feriados eu descobria
Manhattan: uptown, dowtown, midtown,
west e east side, a pé. A cidade
é uma festa a céu aberto.
Feiras, festivais, exposições,
caminhadas coletivas, shows e desde
1985, o Dia do Brasil, o maior festival
brasileiro no mundo, no centro da
cidade.
Também posso dizer que conheço
bem o centro de Moscou, a capital
da então poderosa União
das Repúblicas Socialistas
Soviéticas.
Entrando e saindo do metrô-o
mais bonito, o mais limpo e o mais
seguro do mundo - eu conheci a velha
e a nova Moscou. Saia da universidade
Patrice Lumumba bem cedinho e só
voltava de madrugada.
Não posso dizer o mesmo sobre
Roma e Paris. Mas, caminhei muito
pelas ruelas, tumbas, escavações
e monumentos da Roma antiga. Fiz amigos
em cantinas, muitos dos quais com
familiares em São Paulo.
Fucei pela St. Honoré, Bastille,
Montmartre, Quartier Latin. Descobri
bistrôs incríveis. Namorei
nas barcaças do rio Sena. Almocei
no Maxim`s. Fui ao Moulin Rouge. Vi
Paris da torre Eiffel e fui ao Picadilly
para conferir o que a francesa tem.
Ainda vou rever a Lisboa antiga e
a Havana vieja. Por enquanto, contento-me
em descobrir o centro de São
Paulo, a capital dos negócios,
das artes e do entretenimento do nosso
país e da América do
Sul.
Líder estudantil caipira de
Mato Grosso, antes de deixar o Brasil,
só estive em São Paulo
uma vez. Foi como membro de uma delegação
do Congresso da UBES, na sede da UNE,
no Rio, para conhecer a refinaria
de Cubatão, orgulho da nossa
campanha: O Petróleo é
Nosso.
Era uma madrugada de julho. Fazia
um frio danado. Guardo as lembranças
das camionetas do jornal A Gazeta
Esportiva com a edição
cheia de fotos de Luizão, nosso
campeão de boxe e da “televisão
de cachorro” (frango sendo assado,
no espeto elétrico, na vitrine,
para atrair fregueses). A primeira
vez que via aquilo.
E foi naquela manhã de muita
garoa paulistana quando devorei o
meu primeiro galeto al primo canto,
no Largo do Arouche, ao lado do Pingão
e de muitas flores.
Trinta anos depois voltei a São
Paulo na condição de
Secretário de Governo de meu
estado natal para organizar e promover
o Mato Grosso Convida. Durante uma
semana o governador “vendeu”
o seu peixe para industriais e empresários.
Há que sair do hotel, do apartamento,
para se conhecer as belezas e as maravilhas
do centro de São Paulo. Com
o trânsito do jeito que está,
as calçadas entulhadas de camelôs
e pedintes, é óbvio
que domingos e feriados são
os dias ideais para a grande descoberta
ou “re-descoberta”.
A São Paulo européia
“descansando” é
simplesmente majestosa. A gente sente
força, coragem e pujança.
Apesar de restar pouco da São
Paulo Colônia, há muito
da do Império e uma presença
maciça da São Paulo
Republicana, empreendedora.
Temos que apoiar, com ações
concretas, esse trabalho de valorização,
de recuperação e de
re-construção do centro
da cidade de São Paulo.
Andréa Matarazzo da prefeitura
e Alexandre Thiollier do Centro Novo
são homens que estão
fazendo a diferença.
Como foram nova-iorquinos de coragem,
audácia e visão, com
o apoio do prefeito Edward Koch, que
salvaram o East Village e recuperaram
o Soho fazendo-os points de artistas,
músicos, modelos, jovens empresários,
ricos internacionais, turistas, galerias,
lojas e restaurantes de excelente
qualidade. Eu estava lá quando
tudo começou, na Prince street.
À noite ninguém se
aventurava passar pelas ruas escuras
do Soho com seus depósitos,
galpões e prédios seculares.
Uma rachichelândia.
O sonho verde e amarelo e a leitura
errada da situação no
Brasil me deram prejuízos irrecuperáveis.
Deixei de comprar lofts com pé-de-meia
de até 10 metros de altura
por U$ 20 mil dólares. Hoje,
vendidos por mais de um milhão.
A gente sai do Brasil, mas o Brasil
não sai da gente. Após
conhecer cidades importantes sinto
umas sensações diferentes,
boas e salutares ao descobrir, no
meu país, o centro de sua locomotiva.
Jota Alves
criou o Dia do Brasil nos Estados
Unidos.
Ex-Secretário de Governo em
Mato Grosso.
alves-jota@uol.com.br
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