| O senador Arnon de Mello puxou um trinta e oito, dentro do plenário do Senado Federal e mandou bala. Atirou no que viu e acertou no que não viu. O seu desafeto não sofreu nada. O pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello não foi punido pelos seus pares, nem pela justiça. Voltou ao senado.
Fui seu cicerone e interprete em Moscou. Ele estava interessadíssimo em energia nuclear. Fomos a dois reatores nos arredores da capital da então poderosa União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Eu, ávido por notícias políticas. Ele, mesmo apoiando os militares, já criticava a ditadura que não deixava os coronéis nordestinos à vontade.
O clima atual no nosso senado é tão pegajoso, virulento e virótico que fui conversar e ouvir as magníficas ponderações de Vovó Fifina, a conselheira para todos os males, principalmente, os de políticos. Lúcida, gentil e brincalhona nos seus 95 anos, segundo ela, bem sofridos e bem vividos.
Foi logo se adiantando: “esse Renan Calheiros é um alagoano que sabe brigar a briga política. Esperto, manhoso e perigoso. Pra se segurar no poder ele faz qualquer acerto. Ele é herdeiro do bom e do pior das Alagoas. Escola de usineiros e de pistoleiros. Facada e tocaia”.
Ralou um pouco de guaraná, colocou cinco gotas de água, uma colherzinha de açúcar mascavo, num copinho desses de beber cachaça na beira de estrada, mexeu, mexeu, mais água e me deu pra beber. Fiquei ligado.
Ela ensinou: “esse menino tem proteção forte. Eu sei quem são eles. É uma mistura de Seu Sete Quedas, Pomba Gira e Seu Caveira. Ele tem o Lula na mão e muita gente grande, por isso já vai pra seis meses essa briga...dizem que o Brasil tá parado...mas, pra dizer a verdade foi sempre assim..a saída do Zé Dirceu e o mensalão, parou o governo”.
“Quando o Teotônio Vilella, pai do atual governador de lá, já estava condenado pelo câncer, vieram falar comigo. O senador, já sem cabelo, veio me ver. Conversamos bastante e, na ocasião, eu lhe disse que ele já estava saindo desta vida. Não tinha mais remédio. Ele perguntou: e meu filho, vai ser alguma coisa na política? Eu peguei as suas mãos, frias, e disse que o menino ia ser governador das Alagoas”.
Eu disse à Vovó Fifina que estava sentindo um cheiro de sangue vindo do senado federal. Que a coisa tava fedendo, que os senadores já estavam saindo do discurso inflamado pro bate boca, daí pra baixaria e pancadaria... E se alguém entrasse no plenário armado, como antigamente. Como Arnon de Mello? Como muitos outros senadores da República?
A sapiência em pessoa sorriu e mandou ver: “Jota Alves, meu filho e afilhado, os tempos são outros... honra, saco roxo, palavra, dignidade, vergonha na cara, amor pelo Brasil, vão comigo para os sete palmos.Tudo é no acerto, é na caixa de sapato, cheia de dólar..Renan sabe que tá puxando a corda, mas não é bobo de deixar arrebentar”.
“Pode ter um ou outro arranca rabo, pra imprensa noticiar. O Lula que é mais esperto que todos eles juntos, vai viajando, subindo e descendo do avião e deixando a briga rolar. Nem é contra o Renan, nem é a favor..a coisa vai ser acertada antes de findar outubro, mês de alagoanos”.
“E quer saber de mais uma: essa moça, a mãe da filha dele, posou nua pra revista, num acerto. O Renan foi quem mandou, foi quem autorizou..o que mais a nossa gente gosta é de sacanagem, de escracho..Ele deu o que os seus adversários queriam e a gentalha gosta. Todo mundo saiu ganhando”.
“Meu menino, quem no senado, no governo, pode atirar a primeira pedra no Renan Calheiros? A lama ta subindo no pescoço de todo mundo lá em Brasília e nos governadores, nas prefeituras, nas assembléias, nas câmaras dos vereadores. O Brasil tá numa quadratura muito ruim. E o poço é fundo. Ainda vamos sofrer muito e ver muita mata e muito caboclo queimado.”
Vovó Fifina ao me dar o braço para ajudá-la a levantar-se da rede, riu e concluiu: “não é por acaso que sou alagoana...minha bisavó foi pra cama com Zumbi...isso de que ele gostava era de homem foi uma invenção safada dos usineiros, dos caçadores de escravos pra desmoralizar e apagar a vida e a memória de Zumbi dos Palmares”.
“Você sabe quantos presidentes do Brasil vieram das Alagoas? Renan vai sair disso tudo sem gastar nadinha e ainda vai ser reeleito”.
Quando estou acabrunhado, decepcionado, frustrado, triste e confuso com tudo que está acontecendo no Brasil recorro à Vovó Fifina. Ela nunca erra.
Mas, e quando ela for se encontrar com seus ancestrais do Quilombo dos Palmares a quem vou pedir conselhos sobre o Brasil de hoje e de amanhã?
Jota Alves fundou o jornal The Brasilians.
Promoveu por quinze anos consecutivos o carnaval brasileiro
no Waldorf Astoria e criou o Dia do Brasil.
Foi Secretário de Governo em Mato Grosso.
|