Ano 14 - - Fort Lauderdale, FL - USA
 
 
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Horário nobre

Coluna 15  

 

Estamos novelados e nivelados. Aquele horário conhecido no mundo todo como horário nobre (variando, 17/18 às 21/22 horas) no Brasil passou a ser chamado de horário das novelas. A liberdade de escolher o canal, a informação, a diferença, foram para o espaço. No comando, a tropa de elite da ditadura midiática.

A briga por audiência e patrocinadores e lucros nos leva a uma escolha: qual a novela? Da Globo, da Record, da Band ou do SBT? Horário nobre significava concertos, cantores, revelações, novidades, atrações, shows, filmes, reportagens.

Num dos quatro maiores e melhores países musicais do mundo não se vê música no horário nobre. Visitar uma casa brasileira no horário das novelas é falta de educação, é interromper o único lazer “cultural” da grande maioria. A opção? É a falta de opção.

São poucos os que têm acesso à TV Cultura de São Paulo, por exemplo. A televisão a cabo não é para a  ampla maioria do país que tem que cheirar ou fumar ou injetar a sua dose diária de tóxico cultural nos Vale a pena ver de novo e nas novelas das 5, 6, 7, 8, 9.

A TV Record está nos calcanhares da TV Globo. Quando achávamos que teríamos grandes musicais, shows com artistas brasileiros, revelações, atrações internacionais, a Record optou competir e provar que pode fazer novela tão bem, ou melhor, que a Globo. Lá se foi a minha, a sua, a nossa opção. Ou a novela da Record ou a da Globo.

A Band de muitas tradições, principalmente, o esporte, também resolveu que seu horário nobre fica melhor se usado com novela. O SBT, com seu histórico de novelas mexicanas e argentinas, investiu em novelas made in Brazil.

Quem quiser ver e ouvir alguns nomes da música nacional tem que ficar acordado. Como favor ou canja ou ajuda há programas de música popular brasileira, mas na madrugada. Aquilo que nos Estados Unidos é chamado de late late show onde se apresentam iniciantes e os em fim de carreira.
Mas, no horário nobre destaca-se o telejornal, cada vez melhor, competitivo, informativo. Em noticiário estamos bem servidos. Melhor será se em qualidade que em quantidade. Mas, falta o comentarista, o analista internacional. As imagens são as mesmas, os textos idênticos. Só muda a voz e a cara do correspondente.

A novela substituiu o jantar em família, a escola, o papo, o livro, as danças e brincadeiras domésticas, as histórias da vovó, as lições de vida do vovô. Roubou o tempo da convivência social. Silenciou e isolou o   vizinho. Nivelou todo mundo. Meio século de novela é dose cavalar. Não há história, cultura e educação que resistam.

Ver, acompanhar, discutir novela deixou de ser um passatempo, uma exceção. Enquanto nos Estados Unidos a soap opera é vespertina, para encher o tempo das donas de casa do subúrbio, no Brasil é regra nacional, é o máximo em aprendizado, em moda, em modismos, em cultura, em educação. “Quem vê novela é bem educado”.

Mas não é só de novela que a televisão brasileira vem alimentando o pobre do telespectador que, depois de um dia de trabalho, procura um entretenimento, um som, uma música, uma brincadeira, uma novidade. O que sobrou do horário nobre é ocupado por pregações religiosas. Que voltam, mais tarde, depois dos noticiários.

A tropa de elite da TV brasileira nos dá como opções: a Virgem Maria ou Juliana Paes. Moisés ou Lima Duarte. Maria Madalena ou a Prostituta da novela. O Nazareno ou Tarcísio Meira. Com todas essas divindades, vivemos, de fato, num país do faz-de-conta, de milagres, de dízimos, de oferendas, promessas, fantasias e delírios.

Os madrugadores que precisam ir à labuta diária têm sim opção: os diferentes evangélicos, os católicos conservadores ou os carismáticos. Uma boa música para começar o dia, levantar o astral, não tem espaço. Reza e novela. Novela e reza.

Temos que ficar catando um ou outro programa cultural, musical, de entrevista. A TV aberta, concessão pública, portanto, minha, sua, nossa, deita e rola. Fatura, enriquece, faz o que quer, impõe padrões, seu interesse político, religioso e não aceita objeções.

Qualquer crítica à ditadura midiática é considerado um atentado à liberdade de imprensa. Só a TV aberta pode se expressar e o faz com uma programação cinzenta, repetitiva, auto promocional, triste e chatíssima. E muito lixo cultural do exterior.

Aos que foram induzidos a se viciarem, aos adictos, aos adultos, a opção e o direito de se “vidiotizar”. Mas, a criança - o futuro da nação do futuro - não merece esse bombardeio “cultural, espiritual”. “Temos que criar ouvintes, clientes, consumidores. Fazer a cabeça desde cedo. A criança de hoje é o noveleiro de amanhã”. E assim a dominação continua.

Nos suplementos “culturais” dos jornais do interior a sinopse das novelas é mais importante que as notícias locais, regionais. Nas rádios e páginas também. O vestido das atrizes, as camisas dos atores, os penteados das heroínas ou das víboras, ditam moda. As crianças reais imitam as crianças da tela. Os shoppings faturando com os últimos lançamentos das tramas. Novela é feita para isso. Merchandising, audiência, Ibope, faturamento, liderança, domínio e poder. E a nação? Bem, a nação...

A tradição nos deixará ver os “especiais” de fim de ano com a Xuxa derramando lágrimas abraçada com a Simone, Ivete Sangallo, ou com uma gata revelação. Roberto e Erasmo Carlos cantarão: Eu quero ter um milhão de amigos, Jesus Cristo, e contarão, pela milésima vez, como se fizeram amigos de fé, camarada.

E nos intervalos comerciais anunciarão novelas e mais rezas para 2008, bem mais sofisticadas, e mais fazedoras-de-cabeça. O ouro foi descoberto, o filão continua produzindo e não se mexe em negócio lucrativo. Bussines is bussines.

Outro dia sintonizei na RAI -  canal italiano - e vibrei com o respeito e a dignidade com que tratam os clássicos da música popular brasileira. Na França e nos Estados Unidos nossos artistas continuam enchendo teatros e cativando telespectadores.

Os Big Brothers da televisão brasileira (Globo, Record, SBT e Band) decidiram, demo-crática-mente, nos dar opção: a novela e os padres da Globo ou a novela e os pastores da Record. A novela e os genéricos espirituais do SBT ou a novela da Band e seus espaços religiosos. Tudo em horário nobre com repiques matinais e vespertinos. Você decide!



 

Jota Alves fundou o jornal The Brasilians.
Promoveu por quinze anos consecutivos o carnaval brasileiro
no Waldorf Astoria e criou o Dia do Brasil.
Foi Secretário de Governo em Mato Grosso.


 
 
 
 
 

 

 

 

 
 
 
 
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