Ano 14 - - Fort Lauderdale, FL - USA
 
 
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A ida e a volta

Coluna 18  

 

O que é mais traumático, a ida para os Estados Unidos ou o regresso ao Brasil?
Durante a semana, ficamos inundados de notícias a respeito da volta de brasileiros. O artigo do New York Times foi lido, relido, comentado, e serviu de bússola para muitos outros.

A imprensa brasileira nos Estados Unidos deve incentivar comentários, entrevistas e depoimentos dos que voltaram. As razões do regresso são muitas, como serão muitas as frustrações, decepções e problemas da readaptação dos que já estão uns dez anos nos States. Se, para muitos, chegar aos Estados Unidos, sem falar o idioma, sem emprego, legal ou ilegal na adaptação do novo modo de vida e de comportamento, é pesado, difícil e traumático, voltar, para recomeçar, no próprio país, não vai ser fácil.
Os que ultrapassaram a fase de adaptação ao clima, ao ritmo de trabalho, ao comportamento social, que viveram os dias das torres gêmeas e os métodos e as leis para combater o terrorismo, esses, diríamos, os aclimatizados, são os que mais vão bater cabeça na volta. Se tiverem filhos adolescentes, não devem voltar. Devem esperar um pouco mais. A barra está feia em todos os sentidos. O choque vai ser grande e o prejuízo pode arruinar toda uma vida.

Os jovens que foram se aventurar naquela do tudo ou nada, de curtição, de ganhar uns dólares e voltar com roupas e tênis da moda, esses, legais ou ilegais, deportados ou não, podem sentir menos, ou não sentir nada. Já saíram daqui moldados no arregaço que é o new brazilian way of life: insegurança e libertinagem em todos os aspectos do cotidiano.

Cada um tem a sua história, daí a riqueza de informações do ir e vir dos brasileiros. Os motivos que me fizeram sair de Moscou, centro da experiência comunista, para New York, e trabalhar no centro do grande símbolo capitalista, o Rockefeller Center: política, curiosidade, busca e oportunidade. Tentei o mundo acadêmico. Fui aceito na Princeton university, mas não tinha dinheiro para custear o room e board (casa e comida). Fui à luta. A minha história muitos conhecem.

Foi o meu engajamento ideológico e a eterna saudade de quem sai do Brasil garoto (20 anos) e vai regressar cinqüentão que me fizeram voltar, pra ficar. Deixei New York, depois de anos amassando o pão de cada dia e plantando crédito. Tudo que tocava ou fazia dava certo. O fim da ditadura militar, a volta de companheiros, colegas de universidade e de amigos, falavam mais alto. Eu precisava voltar. Já não sentia o mesmo pela mais competitiva e palpitante cidade do mundo.

Vim, fiz o que gostava de fazer. Elegi amigos, fui do primeiro escalão do governo do meu estado natal. Contribuí, ensinei, apren-
di. Melhorei e ampliei meus conhecimentos sobre o povo, suas instituições, seu passado, presente e futuro.

Já os que não têm engajamento político, ideológico (hoje, uma raridade fossilizada), religioso, comercial ou comprovadamente científico, esses devem pensar duas vezes. Se estão vivendo com as garantias do Green Card ou do citizenship, com filhos na escola e projetos futuros, não regressem. Viajem, visitem, comam a feijoada da vovó, deitem e rolem na praia, na fazenda do tio rico, na cidade, na periferia, dancem e transem a vontade. Mas não venha de mala e cuia, como dizemos em Cuiabá.

O choque vai ser grande. No peso do pão, da carne. No leite “malhado” com soda cáustica e água sanitária. Nos remédios falsificados. No trânsito maluco, desvairado (o que mais mata no mundo). Nas balas perdidas. Na escola deteriorada, na pior educação do mundo. No caos da saúde e da segurança.  Nos acertos e acordos que não são cumpridos. Na política, então, nem se fala. Nos três poderes a corrupção está institucionalizada.

Se quiser ficar up to date, se enturmar, criar amigos, vai ter que acompanhar novelas e outros enlatados e importados. O parâmetro social e cultural é a novela. Isso vai dar umas doze horas de televisão por dia. Quem não gosta de música popular brasileira, vai se sentir bem. Quem prefere oração e sermões, vai se dar bem. Não se assuste e nem brigue com sua filha se ela chegar da escola com a bolsa cheia de camisinhas. É mais uma experiência de “educação” sexual. Dar “segurança” para as meninas iniciarem a dar com dez, onze anos. Desmoronamento social e ético, galopante.

Cuidado extremo nos negócios imobi-liários. Aprenda a lidar com Cartórios. Fique de olho no seu dólar; o passar a perna não é mais uma exceção. Mesmo com uma família honesta, solidária, cuidado com parentes e amigos de infância. Eles podem não ser mais os mesmos que você conheceu. Cuidado com as transações financeiras. Nada é sólido, garantido. Só o colossal lucro dos bancos, dos fundos de pensão, dos agiotas institucionais. O jeitinho light do passado virou mentira, atropelo, derrubada, mão boba, cara limpa. Quanto mais alto o cargo, maior a mentira.

Não arrisque o seu presente e o de seus filhos por um futuro incerto. Hoje, com a televisão brasileira dentro de casa, você fica tunado com as muitas delícias e maravilhas que só nós temos. Se puder, leve parentes e amigos para uma temporada aí. Se puder, venha com freqüência ao lugar onde nasceu. Isso vai lhe fazer bem. Continue amando o Brasil. Mas, não venha agora. O que os olhos não vêem o coração não sente. Você está aí, aprendeu hábitos de convivência diferentes. Não tente transportá-los na bagagem. Vai ficar estressado e pode ficar andando em círculo. É tanto desacerto que a sua pressão pode subir e a sua poupança virar fumaça. Espere um pouco, um pokito más.
Agora, se você foi pro arraso, entrou e ficou na ilegalidade, ganhou uns dólares, mas a “Migra” tá dando em cima e a situação pode piorar, volte. Quem já era do trampo aqui, não vai sentir diferença. Pelo contrário, vai voltar mais escolado, mais informado, com mais tecnologia e pode se dar bem melhor aqui. Com dólar na mão, não tem pra ninguém. Toda sentença, condenação e prisão, tem um preço. Acerto de todo tipo.

Continuo repetindo e ensinando que a “gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai da gente”. Continuo aqui por que meu tempo passou. E foi bom. Depois do que o Osama fez, perdi tesão por New York. Mas, nem por isso deixo a objetividade de lado. Por ser de minha terra e de minha gente é que sinto, profundamente, que estamos no mato sem cachorro. O Brasil está sem rumo. Destruindo a si próprio. E não vejo luz no fim do túnel.

É melhor e mais gostoso ficar com saudade. Vá à luta. Não caia em depressão. Aproveite todas as oportunidades. Nós torce-mos por você. Não volte agora.


 

Jota Alves fundou o jornal The Brasilians.
Promoveu por quinze anos consecutivos o carnaval brasileiro
no Waldorf Astoria e criou o Dia do Brasil.
Foi Secretário de Governo em Mato Grosso.


 
 
 
 
 

 

 

 

 
 
 
 
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