Ano 11 - - Fort Lauderdale, FL - USA
 
 
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O maior terremoto foi em Mato Grosso

Coluna 21 
 

Noticia-se que a primeira vítima brasileira de terremoto foi uma criança de cinco anos em Caraíbas, Minas Gerais. Não foi. Mané Pacu que vendia peixe pelas ruas de Cuiabá desapareceu, sua cadela, a Pintada, também. Disseram que ele tinha caído na enxurrada e sido levado pelo rio. Fomos procurar Mane Pacu para saber dos peixes que meu pai havia pedido. O que restou do barraco dele estava dentro de uma rachadura, um buracão, de onde saía um cheiro de enxofre e uma fumaça azul. Até esta data o maior terremoto no Brasil, (6,2), foi em Mato Grosso, em 1955. Alcançou um raio de 200 km. em região de mata fechada. Sem TV, sem a grande imprensa - e como índio não era/é considerado gente - ninguém se interessou pelo desaparecimento de aldeias no norte do estado.

Na escala criada por Charles Francis Richter, em 1935, no Instituto de Tecnologia da Califórnia, tremor de 3,5 não é sentido. O de 3,5 a 5,4 também não, mas pode provocar danos em casas sem alicerces, e barracos, como o de Mané Pacu. De 6,1 a 6,9 causam danos graves. De 8 graus pra cima é um terremoto forte e pode matar milhares de pessoas em segundos ou minutos. Cuiabá está na marca do pênalti. A cordilheira dos Andes é resultado de uma mexida da crosta terrestre. Quando placas de rochas se movem tremores acontecem no Chile, no Peru, na Colômbia. Eles chegam até nós.

O professor Edson Miranda da UFMT espera por um Big One: “os antigos sempre falavam do buracão. Essa falha geológica passa rente à igreja de São Benedito. No buracão sumiu muita gente e animais. Cuiabá sempre tremeu”.

“Acordei em Chapada dos Guimarães com a cama tremendo” informa o advogado André Pozzetti, interessado nos canyons e nas falhas no paredão. Berê Dias, de Várzea Grande, onde está o aeroporto internacional Marechal Rondon: “era de tardinha quando a rede começou a balançar, o cachorro a latir, as galinhas a correr e a empregada gritando que as panelas estavam caindo dos ganchos na parede. Foi uma sensação muito estranha”. “Em Porto dos Gaúchos a coisa tá ficando feia” diz Jorge Spadoni.

Paraíso

Sempre achamos que Deus é brasileiro. Terra abençoada. A maior floresta do mundo, riquíssima. O maior rio do mundo. Água potável por todo lado. Sem ciclone, furacão, pragas, enchentes, terremotos, vulcões, tsunamis. Um paraíso.

Mas, então o que está acontecendo? Deus cansou de nós? Ventanias, ciclones, enchentes no Sul e Sudeste. Tremores no Centro e no Nordeste. Terremoto em Minas. Destruição da Amazônia. Poluição de rios. Pragas de mosquitos, formigas. Aids, tuberculose, hepatite. O câncer de pele, no Centro-Oeste, matará milhares. E vem mais coisa ruim por aí. Os tremores com mais freqüência e mais fortes. Serão terremotos.

O governo precisa aparelhar a Defesa Civil, as Forças Amadas. Mato Grosso, Goiás, Brasília, Rondônia, precisam de estações sismográficas. O município de Porto dos Gaúchos que se cuide. Poderá ser varrido do mapa. O mesmo terremoto que destrói dez casas e mata vinte pessoas pode devastar cidades e matar milhares. O país tem que se preparar e levar o assunto com a máxima seriedade. Parar de por a culpa em divindades.  

Vovó Fifina

Uma coisa é um tremorzinho. Outra é a sacudida de um terremoto. Passei por dois. Em Los Angeles e em Lima. Difícil descrever aqueles segundos. Onde se está? Na terra? No ar?  E, o pior, totalmente indefeso. Se correr, o buraco te puxa, se ficar, o teto te amassa.

Vovó Fifina, cheia de saúde (mais velha que Oscar Niemayer) ensina: “Cuiabá tá no corredor dos tremores, num buracão. Embaixo tem um lago imenso, o Guarani, com água doce pra todo mundo, mas os cuiabanos acabaram com os córregos, construíram em cima, agora as nascentes estão represadas e forçando as rochas. Tão furando a cidade fazendo poço pros arranha-céu. A mineração de ouro deixou tudo furado. Pra arriá e puxar a gente, é daqui pra li. Tem bairros inteiros condenados. Não era pra construir nos alagados e nas veredas. Aquele casarão caro e chique, o clube dos desembargadores, pode cair no buracão”.
- Vovó, Deus não é mais brasileiro?

Ela jogou as pedras e disse: “Deus manda sinais, recados, mas é só corrupção e trepação. Tão destruindo tudo. Tão se esquecendo de Sodoma? Cuiabá, o Rio de Janeiro, Recife, Brasília, tão que nem Gomorra. Outra cidade que vai pro buracão é Belo Horizonte. Já ouviu falar em queijo de Minas, cheio de buraco? A cidade tá cercada de morro e o povo tirando minério e esburacando tudo. Faz cinco séculos que cavucam Minas. Tão pagando pra ver. Há males que vem pra bem. A destruição dos terremotos vai tornar o brasileiro menos egoísta, mais solidário. Talvez com mais vergonha na cara e coragem pra brigar por seus direitos O Lula manda di-nheiro pra ajudar mexicanos, peruanos, bolivianos deveria ajudar os mineiros, pobrezinhos, chorando sem suas casas. Deus cansou de nos proteger. Sapo vai voar, cobra vai gritar”.

Os maiores terremotos acontecem no Japão e nos Estados Unidos. Los Angeles e Tókio são cidades condenadas. São Francisco da Califórnia já foi quase totalmente destruída. Quando eu estudava em Moscou senti um tremor, bem grandote. Fui embora. Vivendo em New York esperava, a todo o momento, a cidade ser engolida pelo mar. Regressei. Vim para Cuiabá e descubro que ela está bem no meio do buracão. E agora José?

 

Jota Alves criou o Dia do Brasil nos Estados Unidos.
Ex-Secretário de Governo em Mato Grosso.
alves-jota@uol.com.br


 
 
 
 
 

 

 

 

 
 
 
 
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