| Como tantas, mais uma lei que não vai pegar. Há uma “guerra” nas estradas. Brasileiro matando brasileiro. É um acontecimento antigo e que não dá mais Ibope. Mas, excelente para os inúmeros programas “vermelhos” da nossa TV. Centenas morreram, neste último carnaval, como milhares em todos os outros, de ontem e de amanhã.
Há “séculos” fala-se na proibição (que já existia) da venda de bebida alcoólica ao longo das rodovias federais. E nas estaduais e distritais. Nestas, bebe-se tanto ou mais que ao longo das federais. Em Mato Grosso, por exemplo, fizemos campanhas contra a venda de bebidas alcoólicas. Uma lei foi aprovada especificamente para a estrada que liga Cuiabá à Chapada dos Guimarães (local de alto potencial turístico). Nela, nos feriados, principalmente, morriam, dezenas de jovens empanzinados de cerveja e de outras substâncias. A lei existe, mas não é cumprida.
Há uma desordem institucional gene-ralizada no país. Há um descompasso sócio-cultural galopante. A corrupção e a falta de líderes não deixam o Brasil sair do atoleiro em que se encontra. Nesse clima que começa no topo da pirâmide política, na administração das cidades, estados e bens públicos, os contratos não são respeitados. As leis não são cumpridas. As leis de proteção ambiental mostram bem a grande fraqueza institucional. O governante de plantão, sempre movido por interesses pessoais e grupais, proclama e submete leis para a platéia, para o grande público circense.
O presidente Lula reuniu ministros que sobrevoaram grande parte de Mato Grosso - campeão com o Pará em derrubada de florestas - com declarações, notícias bombásticas de arregimentação de forças federais, medidas de crédito rural que protegem a Amazônia, promessas de punições severas. E o desmatamento e as práticas eco-deliqüentes, de pilhagem, de terra arrasada, continuam. Neste exato momento em que você está lendo esta Carta, estão desmatando. Estão cercando e destruindo o já reduzido entorno do Parque Nacional do Xingu. E, neste governo, isso não vai parar.
Como não vão parar os abusos e absurdos nas estradas. Já disseram que temos mais vítimas anuais nas nossas estradas que em toda a guerra do Iraque até agora. A indústria das liminares já está em movimento. Bares e restaurantes foram lacrados pela Polícia Rodoviária Federal, e abertos, por Juízes extremamente zelosos em usar as brechas da azeitada processualística brasileira. O mesmo acontece em TODAS as atividades humanas e seus ilícitos. Limi-nares, no Brasil, que deveriam ser exceções, para casos muito especiais de defesa da liberdade e de direitos individuais, é regra. Se ganha dinheiro, muito dinheiro com a indústria das liminares.
A nação está intoxicada pelo esgoto das instituições podres. A desordem e os crimes de trânsito espelham bem como somos, o que não queremos e o que seremos. Porque brasileiros matam brasileiros nas estradas? Simplesmente pelo descaso com a dignidade humana, pela falta de solida-riedade, pela quebra de contratos culturais de sobrevivência mútua, pelo desequilíbrio moral e ético que levam à impunidade, à ausência de leis fortes, duras, definitivas e ao não cumprimento das existentes. Tudo é paliativo, é quebra-galho, é jeitinho, é covardia cívica e maracutaia política.
Há político em ano eleitoral capaz de negar a própria mãe, de não reconhecer irmãos, de meter a mão em cartões corporativos do dinheiro público e de mentir, descaradamente ao povo que o elegeu. Nessa santa ceia de falsos profetas não há lei em defesa do meio ambiente e da vida nas estradas que tenha sucesso. Ninguém leva a sério, e todos sabem por que. Sem líderes e sem instituições sólidas “deixa a vida me levar, vida leva eu.”
Um exemplo de corrupção é a promíscua relação de agentes da lei com os que detêm muito ou pouco poder. O policial de trânsito come um pastelzinho no bar da esquina. Fila um cigarro no boteco da Joana. O federal almoça na churrascaria do KM.30 e, às vezes, janta no restaurante daquela outra BR federal e assim vai. O pano é longo e quente. Como é que eu vou punir e fechar quem me ajuda, quebra meu galho? Nas estradas, como na Amazônia, poucos e mal pagos, os agentes da lei acabam consumidos pela avalanche das facilidades e da “plus-valia” da corrupção, generalizada.
As nossas instituições são fracas em fiscalização, punição e prisão. A cultura da mutreta, do jeitinho, do privilégio, do compadrio, do esquema político-partidário, não deixa a gente melhorar. Alcoolizados ou não, brasileiros vão continuar matando brasileiros nas estradas.
Jota Alves
criou o Dia do Brasil nos Estados
Unidos.
Ex-Secretário de Governo em
Mato Grosso.
alves-jota@uol.com.br
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