| É de fundamental importância a convocação do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso para debater o uso e o abuso de programas com fins políticos eleitorais na televisão. O tema é de interesse nacional. Cito como exemplo, o que está acontecendo em Cuiabá, capital de Mato Grosso. Três deputados estaduais se apresentam, diaria-mente, em programas popularescos. Doam óculos, remédios, criticam prefeituras, usam e abusam das emoções de gente pobre, humilde. Abençoam pessoas, falam e se apresentam como Salvadores, Redentores, Pais dos pobres. Amaldiçoam adversários. Exorcizam diabos.
Os três são postulantes às eleições municipais que se avizinham. Os três, sendo deputados, estão em permanente campanha eleitoral para todas as eleições.
Imaginemos o cenário: acrescente-se aos três deputados mais dez parlamentares com programas matinais, vespertinos e noturnos nas matrizes em Cuiabá e nas reprodutoras regionais. Há informações de que três jovens deputados estão fazendo cursos de dicção, controle de voz e outras técnicas modernas no uso de câmeras, luzes e microfones. Muitos deputados e vereadores já usam espaços nas TVs filiadas e nos programas de rádio locais. E muito espaço em jornais, revistas e sites.
A prática é nacional. Ela se perpetua porque elege os que dela se beneficiam. Neste exato momento, está na Casa Civil do governo federal o processo da renovação das concessões da TV Globo, Record, Band e SBT, em expiração. Começou a luta pela presidência da Comissão que julgará as concessões públicas.
O governo federal não divulgou quais (se as há) alterações, emendas, mudanças que pretende propor a essa verdadeira aberração nacional. Usa-se o eufemismo de TV ABER-TA para diminuir a compreensão de que a concessão é Pública. Minha, sua, nossa. A concessão tem sido um presente, um regalo, um toma-lá-dá-cá entre grupos empresariais, políticos. Ultimamente, também religiosos. Basta levantar a lista de privilegiados no Maranhão, na Bahia, em Alagoas, em Minas Gerais, em Rondônia, pelo país todo e a conclusão é cristalina: a grande mídia nacional elege, dá e tira poder, usa e abusa de sua inigualável posição. A concessão enriquece famílias, alavanca fortunas. O povo é apenas o objeto, o alvo, o consumidor, o eleitor. Concedem-se direitos, mas não se cobram deveres para com a nação.
Nunca acreditei tanto em mudanças nas telecomunicações brasileiras como quando da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Acreditei em Gushiken, primeiro ministro da área, considerado um pensador, um ideólogo do PT. Um homém-idéia. Acreditei no ministro da Casa Civil, de onde saem as diretrizes finais do governo. Acreditei no discurso, nas promessas, nas evidências de necessidades inadiáveis de se fazer na concessão pública das TVs. Os arremedos de mudanças foram neutralizados pelos escândalos. O governo, mais uma vez, ficou refém do poder midiático. Para manter-se, abriu e abre os cofres públicos. Como sempre, o maior cliente da mídia eletrônica. Paga para sobreviver.
Que moral tem o governo Lula para propor mudanças essenciais nas concessões? Restaria aos representantes do povo ações legislativas para acabar com as distorções e privilégios. Mas, quem vai atirar a primeira pedra?
Restariam às organizações sociais, as mesmas que discutiam que escreviam que debatiam que denunciavam que saiam às ruas, com temas e problemas nacionais, as mesmas que defendiam e lutavam por um governo transparente, civicamente corajoso, um governo de mudanças para o aprimoramento da democracia brasileira, ações como a do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso.
Mas, onde estão as “esquerdas”, as eclesiais de base, a CNBB, os intelectuais e as elites universitárias que criaram, amamentaram e ensinaram a elite que hoje governa o Brasil? Silêncio, conivência, covardia política, confusão ideológica.
Não vai haver qualquer mudança no essencial das concessões públicas de TVs no país. Muito pelo contrário, em ano eleitoral, quem se atreve a mexer no vespeiro? O governo federal? Claro que não, ele precisa ganhar as eleições municipais, voltar ao palco e se preparar para as presidenciais de 2010 e 2014.
Fundamental o esforço e a coragem dos jovens dirigentes do Sindicato de Jornalistas de Mato Grosso. Seu exemplo deveria ser seguido por todas as instituições federais, estaduais, municipais, pelos clubes de serviço, Ongs, Igrejas. Pelos homens da lei. Por todos os organismos vivos da sociedade. Uso e abuso na TV que é pública. TV aberta sim a todo tipo de experimento, à manipulação do povo, do consumidor, a serviço dos inte-resses de grupos nacionais e internacionais.
Qual a contribuição efetiva de programas de deputados, vereadores, políticos, para mim, para você, para nós, para a nação, na TV “aberta”? Deputado pode sim, comprar, produzir e manter programa na TV a cabo. As inúmeras denominações religiosas também podem fazer o mesmo. Mas, ao governo fede
ral interessa manter tudo como está. O uso e o abuso da concessão pública nas nossas TVs vão continuar.
A quem se vê e se ouve em horários comprados nas nossas TVs: locutores, apresentadores, repórteres, comunicadores, evangelizadores, deputados, candidatos?
Jota Alves
criou o Dia do Brasil nos Estados
Unidos.
Ex-Secretário de Governo em
Mato Grosso.
alves-jota@uol.com.br
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