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O governador do estado de New York não caiu do cavalo. Caiu na cama com uma prostituta. Com a esposa do lado, fez uma mea culpa esfarrapada e deixou o governo. A carreira política foi pro brejo. Socialmente, um paria.
Nelson Rockefeller, símbolo do capitalismo mundial, governador de New York, morreu transando com uma garota de programa em um dos seus apartamentos, ao lado do Museu de Arte Moderna, bem no centro de New York. Diziam na ocasião que se tratava de uma brasileira. Corri atrás dessa notícia, nunca comprovada. Uma de suas filhas foi minha vizinha na Rua 65 com a Park Avenue. Mas essa é outra história.
Política, poder e sexo sempre estiveram juntos. Júlio César, Cleópatra e Marco Antônio estão presentes na vida de milhares de políticos, chefes, poderosos, concubinas, amantes, prostitutas. A cabeça de João Batista foi parar numa bandeja pelo poder e o desejo sexual de Herodes. Repórter na História, eu estava lá, e posso afirmar, como muitos dos romanos, que Salomé já estava bem passada.
Há nos Estados Unidos dois delitos, in-frações, crimes, fatais, para a carreira política. Delito de trânsito e adultério. Pequena que seja a infração no trânsito ela fica para sempre no currículo do cidadão. Ao longo dos anos pode até não vir a ser impeditiva, mas a mancha permanece, maior até do que ter fumado um baseado na escola, ou ter cheirado cocaína na universidade.
O senador Ted Kennedy, depois de perder dois irmãos, o presidente John e o irmão Bob, favorito das eleições presidenciais, ambos assassinados, tinha tudo para se eleger presidente. Um acidente de carro aflorou o adultério que ele vinha cometendo com uma secretária que morreu afogada. Há sempre uma loira na carreira de políticos afoitos, sejam eles norte-americanos, franceses, brasileiros, ingleses, e mais, ultimamente, também russos. Mae West, Marilyn Monroe, Lana Turner, Kin Basinger, Share Stone, as fatais do cinema, são imitadas, por toda parte. Principalmente, em Washington, onde caiu o governador Spitzer.
Rudy Giulianni, o prefeito da tolerância e do crime zero, o homem que liderou a cidade de New York durante aqueles dias terríveis da destruição das torres gêmeas, próximas ao City Hall - a prefeitura da cidade - querido e admirado por todos, morreu na praia da corrida presidencial. Mas, o que tirou a força e o carisma de Giulianni entre os seus pares republicanos? Não foi um delito de trânsito, corrupção, brigas internas no partido. Ao separar-se da esposa, ele o fez com certo desdém, passando a imagem de sedutor. Ficou desfilando com a nova conquista. Ele perdeu gás, simpatia, adeptos. Saiu do páreo. Sumiu da mídia que o idolatrava como herói nacional.
No país de todas as liberdades, a prostituição é ilegal, mas ela existe. Há regiões onde o sexo anal, mesmo entre adultos conscientes, é crime. Há corrupção. Há abuso de poder. Há maracutaia, como aquela dos votos na Flórida, que deu a vitória da primeira eleição presidencial para George Bush, o filho. Há carros turbinados. Há carros roubados. Há menores dirigindo. Há consumo de bebida alcoólica nos restaurantes, bares, motéis, às margens das estradas federais, estaduais, distritais, vicinais. Comete-se adultério. Há desvios de conduta social. Há psicopatas. Há traficantes. Há contrabandistas.
Há deveres e obrigações. Mas há o “to be or not to be”. Há instituições sólidas, seculares. Mesmo, com falhas, o ninguém deve estar acima da lei funciona no dia-a-dia da sociedade, da nação. Os violadores de contratos sociais são censurados por suas igrejas, empresas, comunidade, família. Perdem posições sociais, empresariais, políticas.
Pode beber, mas se for pego, é detido, mãos para cima, perna aberta e se precisar, algemado e preso. Nos quase trinta anos que vivi em New York, nunca vi uma “carteirada” no trânsito. Não há aquela clássica alegação: “você sabe quem eu sou? Olha, seu guarda eu sou filho de...”
A imprensa noticia, com fotos, a prisão, a condicional e as penas comunitárias de famosos, astros e estrelas do cinema, da televisão, do show bussiness. Há uma bronca maior com relação aos políticos. Quanto mais graúdo, mais o “dura lex sede lex”. Se for homem da lei e cair, é desgraça total. Promotor, o governador que caiu fez uma campanha política de combate aos contraventores, entre os quais, os cafetões e cafetinas. Apanhado com as calças e as agendas telefônicas nas mãos viu o feitiço virar contra o feiticeiro. Saiu da vida para entrar na história. Uma história de desonra.
O desprezo e o escárnio pelos homens da lei que cometem delitos são sustentáculos que fazem os Estados Unidos superar suas dificuldades e contradições. Nem tudo que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Mas, há exemplos políticos tão dignificantes, que merecem ser seguidos. A desculpa pública, a resignação e a humildade diante de fatos incontestáveis, o deixar a cena política, “forever”, a punição, são maravilhas do sistema. Vivendo nos States vi um presidente ter que renunciar por causa de tantos delitos, seu Vice, idem, e quase todos os seus assessores mais diretos, saírem da cena política. Vi um deputado acusado de corrupção e, diante das penas do delito ou da vergonha da difamação, suicidar-se com um tiro na boca, em pleno horário nobre.
Vi pequenos, grandes e “grandotes” caírem em desgraça política, financeira, empresarial, social. Nos Estados Unidos não há uma segunda chance para canalhas políticos.
Jota Alves graduou-se em Direito Internacional. Fundou o jornal The Brasi-lians e criou o Dia do Brasil nos Estados Unidos. Foi Secretário de Governo em Mato Grosso.
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