Ano 14 - - Fort Lauderdale, FL - USA
 
 
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O cronista do ano

Coluna 32 
 

Antes de ver e escrever a gente ouvia. Com as crônicas de Genolino Amado e César Ladeira o Rádio foi o grande professor. Depois, os cobras David Nasser, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Heitor Cony, Raquel de Queiroz, Nelson Rodrigues, Antonio Maria. E aquela coisa maravilhosa da professora pendurar um cartaz e mandar a gente escrever o que via. As cartinhas-crônicas-poemas-torpedos de amor. O Secundarista, primeiro jornal estudantil de Mato Grosso. Os panfletos subversivos conclamando a união de estudantes, operários e camponeses. O Democrata, em Campo Grande. O Correio de Corumbá. A Vanguarda Mato-grossense. O Drujba (Amizade), jornal da universidade Patrice Lumumba, e finalmente, o filho querido, hoje, com trinta e seis anos, o jornal The Brasilians, em New York.
É generosidade de meus compatriotas nos Estados Unidos ter me escolhido o Cronista do Ano em premiação da Associação Brasileira de Imprensa Internacional. Mais escriba que cronista, esforço-me em Cartas do Brasil a dividir experiências de três décadas em New York com brasileiros que querem “fazer a América”. E, por ter regressado, em definitivo, orientando e opinando aos que querem deixar os States. Uns contentes, outros decepcionados.
Cronistas são repórteres de épocas. Sem eles o que saberíamos de impérios, guerras, reis, rainhas, Grécia, Roma, do legado de civilizações? Como teria ficado a humanidade sem os fragmentos de crônicas em papiros e pergaminhos? Confúcio ajudou a criar a nação chinesa com suas crônicas e citações proverbiais. Péricles, Sócrates, Demóstenes, Epicuro, Catão, Catulo, Cícero, Sêneca, Homero, Buda, Maomé. O que são os apóstolos? Cronistas dos tempos de Jesus de Nazaré. Crônica Divina foi o título original do clássico de Dante Alighieri. Para desacreditá-lo a chamaram de Divina Comédia. Camões. Cervantes. E a Inglaterra e a dramaturgia universal sem Romeu e Julieta, Antônio e Cleópatra, de Shekespeare? O que teria sido de Portugal sem Pero Vaz de Caminha? E a Espanha sem Américo Vespúccio? Pedro Álvares Cabral e Cristóvão Colombo “descobriram” o que já existia. Os cronistas, esses sim, descortinaram, descreveram e mostraram o mundo rico e encantado dos trópicos. Do Brasil. Das Américas.
Os grandes romancistas foram, na verdade, cronistas do cotidiano, de épocas. O que é Guerra e Paz, de Tolstoi, senão uma crônica detalhada de seu povo. A guerra napoleônica um aperitivo. Doente, num sanatório, nos cafundós da Rússia, devorei clássicos, nunca dantes folheados. Sthendal, Flaubert, Dostoievisky, Romain Rolland, Emile Zola, Alejo Carpentier. Todos, cronistas magistrais, imortalizados como romancistas. Gore Vidal é um craque. Eça de Queiroz, Gabriel Garcia Marques, Vargas Llosa, Jorge Amado, Érico Veríssimo!
Há também os que narram o cotidiano com poesia e música. A poética de Gonçalves Dias e os sambas de Martinho da Vila são crônicas brasileiríssimas.
O cinema perpetua crônicas da humanidade. Charles Chaplin foi um ator-cronista de sua época. Para o Brasil de muitos bons cronistas é culturalmente destruidor saber e ver que a Televisão e o Rádio não dão espaços para a Crônica. E o que será de nós com a notícia a conta-gota saindo de provedores e páginas na internet? Onde o tempero, a descoberta, a lucidez, o dedo na ferida, a magia de um Arnaldo Jabor?  Este sim, cronista.
O fotógrafo registra. O repórter noticia. O cronista descreve, esmiúça, ensina, cria bossas, estilo, moda, imortaliza expressões e significados. Honoré de Balzac leva-nos aos costumes conjugais e sexuais da França de sua geração. Até hoje ouvimos a expressão balzaquiana e seu livro Mulher de Trinta faz-se necessário em nossos dias. Não é preciso ser sádico para se conhecer as crônicas do Marquês de Sade. Na crônica está o sabor da inside story.
Sou um esforçado e insistente candidato a cronista de minha terra e de minha gente. Neste “Oscar” abro o envelope e dedico o prêmio aos que me levaram ao mundo encantado do Rádio e do Jornal; aos brasileiros de minha geração nova-iorquina; à Edilberto Mendes e João de Matos, body and soul do The Brasilians; à Zigomar Vuelma, Fernanda Cirino, Carlos Borges e a toda equipe do Gazeta Brazilian News; a todos da imprensa brasileira nos Estados Unidos, pedindo sempre que fortaleçam a nossa “Academia” a ABII, aos que fazem imprensa brasileira na Europa e no exterior em geral, e adiciono sugestão à Associação Brasileira de Imprensa Internacional: Arnaldo Jabor para Patrono da premiação o Cronista do Ano.

 

Jota Alves graduou-se em Direito Internacional. Criou o Dia do Brasil. Foi Secretário de Governo no Mato Grosso.


 
 
 
 
 

 

 

 

 
 
 
 
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