Ano 14 - - Fort Lauderdale, FL - USA
 
 
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Martinho da Vila

Coluna 34 
 

Nem tudo o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Mas há bons exemplos norte-americanos a serem seguidos. Um deles é esse de valorizar, prestigiar, honrar, respeitar, homenagear e perpetuar seus artistas, esportistas, cientistas, inventores, empreendedores...
Da Rua 46, centro de New York, próximo da Broadway, Radio City, Madison Square Garden, de teatros, cinemas, arenas, como editor de jornal, líder da nossa comunidade e patrocinador do maior baile de carnaval fora do Brasil, no famoso Waldorf Astoria Hotel, tive o privilégio de ser convidado e estar em várias homenagens, premiações, Grammy, Emmy. Fui a dois Oscar.
Havia sempre uma Premiação, um Aniversário, uma Despedida e uma Volta. Ficarão para sempre as de Louis Armstrong, Diana Ross, Judy Garland, Frank Sinatra, Sammy Davis Junior, Charles Aznavour (no Carnegie Hall), Shirley Bassey, Connie Francis, Al Martino, Al Green, Liza Minelli, Julie Andrews, Kirk Douglas, Sofia Loren (no Waldorf), Julio Iglesias, Plácido Domingo...
Nos Estados Unidos, a indústria do entretenimento é a potência que é exatamente porque seus artistas, astros e estrelas são encorajados, respeitados, promovidos, homenageados e perpetuados com seriedade, altivez, muito respeito e muita dignidade. Não é um faz-de-conta.
Elvis Presley continua “vendendo”. Marilyn Monroe nunca foi esquecida. Vem aí um novo filme sobre ela. Estão reeditando trilhas sonoras de Nat King Cole, Ray Charles, Ella Fitzgerald.
Reclamamos que o brasileiro tem memória curta. Não se trata de memorização. No Brasil, morre-se duas vezes e a mídia grande, principalmente a TV, nesses cinqüenta anos tem contribuído e muito para a desagregação e o enfraquecimento da cultura nacional. Dos nossos produtos culturais, a música popular, com o futebol, é que tem aliviado as tensões e a péssima imagem que os nossos regimes, sistemas e governantes deixam no exterior.
Martinho da Vila, um dos grandes, na verdade, um grandote da música brasileira completa setenta anos de vida e uns cinqüenta de boa música e nenhum, mais nenhum dos Big Brothers da TV brasileira teve a iniciativa de prestar-lhe, em horário nobre, uma mais que merecida homenagem. O governo federal tampouco. TV no Brasil é concessão pública. Espera-se um mínimo de reverência e respeito aos que fazem do nosso um dos países mais musicais do mundo, juntamente com os Estados Unidos, México, Cuba, Itália, Espanha, França.
Morrendo de saudades do Brasil, gover-nado por baioneta, depois de ouvir o Pequeno Burguês, não resisti e convidei Martinho para se apresentar no Waldorf Astoria. Foi a sua primeira viagem internacional. Não errei. Ele se transformou num expoente da música e da cultura, como um todo. Disseram uma vez que se um cataclismo destruísse arquivos e coleções, o LP (ou CD) dos sambas-enredos de Martinho da Vila mostraria o que pensavam o que eram e com que se divertiam os brasileiros da segunda metade do século XX.
Martinho excursiona bastante, mas é na França que ele parece incorporar com toda essencialidade a beleza, o ritmo e a magia daquilo que passou a ser chamado no exterior de música popular brasileira, graças aos caminhos abertos por Vinícius de Moraes, Toquinho, Maria Creuza, Chico Buarque. A França ficou contagiada com o Samba da Oração, dedilhado por Baden Powell e cantado pelo francês Pierre Barouk em filme famoso. Ouví-lo cantar Minha Amiga, do CD “Conexões”, em francês, com sotaque carioca, e com aquelas suas paradas conhecidas é uma delícia. Ele é reverenciado nos países africanos de língua portuguesa.
O jabá de ontem é o bé-ré-ré do marketing sofisticado de hoje. Nos programas de grande audiência, para se apresentar e cantar tem que rezar. O samba está confinado ao Rio de Janeiro. Sobrevive graças à resistência das escolas de samba e das melhores tradições cariocas. É uma humilhação dar uma canja, um espaço, para renomados artistas em horários idiotizados da madrugada. O ministério da cultura comandado por Gilberto Gil, um expoente da música brasileira, já deveria ter lançado coleções em CDS, DVS, filmes, cadernos, livros, contemplando os grandes nomes da nossa música popular, pelo menos, desses últimos cinqüenta anos. Escolas, bibliotecas, museus, centros de cultura, deveriam receber vasto material biográfico dos que escreveram, cantaram, fizeram e fazem os nossos produtos culturais.
Nessa corrida de um novo neoliberalis-
mo galopante e popularesco que tritura esperanças, ritmos e sons nacionais chegará o dia (e não está longe) que se quisermos saber mais e melhor sobre a música brasileira e seus bons interpretes teremos que consultar, além do Google, bibliotecas francesas, arquivos dos Estados Unidos, e coleções particulares de uns poucos.
Mas, em casa de bamba quem é do mar não enjoa. Parabéns, Martinho da Vila!

 

Jota Alves graduou-se em Direito Internacional. Criou o Dia do Brasil nos Estados Unidos. Foi Secretário de Governo em Mato Grosso. alves-jota@uol.com.br


 
 
 
 
 

 

 

 

 
 
 
 
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