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Procura-se Vices
Começou, no Brasil, a temporada de caça a vice-prefeito. O ambiente é de leilão. É quem vale mais, quem dá mais, quem negocia mais para levar mais nos próximos quatro anos. Trabalhar e administrar não é preciso. É preciso blefar e saber usar partido e votos para abocanhar cargos, comissões, prestígio e poder paralelo.
Vice, no Brasil, é complemento, é tampão, quebra-galho e mera obrigação eleitoral. Fiquemos apenas nos últimos cinqüenta anos: Café Filho(1), vice de Getúlio Vargas, vivia articulando um golpe à sombra do estadista. Com o suicídio do presidente, o vice, militares e políticos golpistas tudo fizeram para que as eleições não fossem realizadas. Sabiam que o legado de Getúlio lhes derrotaria. João Goulart(2), vice de Juscelino, considerado o herdeiro político de Getulio, foi fustigado até o final do mandato, e ficou praticamente ilhado em suas funções governamentais. Foi reeleito juntamente com Jânio Quadros e, sem querer, provocou uma crise que nos levou à ditadura militar. Goulart encontrava-se em missão oficial, na China, quando Jânio Quadros renunciou.
Os golpistas entraram em cena e não queriam que o vice tomasse posse. O movimento pela legalidade liderado por Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, mobilizou a nação e Goulart voltou ao país, mas, teve que ceder poderes assumindo com um parlamentarismo à brasileira. Um plebiscito devolveu-lhe a presidência. O golpe militar já em andamento, roubou-lhe a presidência. João Goulart morreu no exílio.
Os militares mandaram o vice Pedro Aleixo(3) para Belo Horizonte. José Sarney(4), vice de Tancredo Neves, o presidente escolhido pelo Congresso e que morreu antes de assumir, governou por cinco anos, distribuindo ministérios, cargos e benesses para se consolidar no poder pós-regime militar. Itamar Franco(5), o vice, e o presidente Fernando Collor se detestavam.
O mineiro assumiu a presidência. Nos bastidores, disseram que o vice Itamar articulou a queda de Collor. Marco Maciel(6), permaneceu altivo, nos oito anos da presidência de Fernando Henrique Cardoso. O empresário de sucesso, homem de bem, vice de Lula, luta, há anos, com galhardia, contra o câncer.
Não tivesse fragilizado pela doença muito poderia fazer pelo Brasil. Na cultura política brasileira vice é figuração.
Imaginemos o cenário nos municípios onde famílias e grupos escolhem, elegem, mandam. Como cunhado não é família, nada errado em ter o marido da irmã como vice, ou o sócio, ou o empresário rico, ou o comunicador falastrão, popular e anunciador de milagres. Hoje em dia não é preciso ser vice bom de voto. É preciso ser aquele (a) que aceita ser o objeto de desejo dos donos do partido e dos que patrocinam campanhas eleitorais. Quanto maior o município mais o vice tem que ter o proclamado jogo de cintura para não entrar em atrito com o prefeito, não ficar futricando nos bastidores.
Tem que saber aplicar outra pérola da mais perniciosa escola política brasileira: traba-lhar em silêncio com todas as implicações e vantagens que esse ensinamento produz. Vice bom é aquele que se contenta em ser O Sombra. Nada de ofuscar o brilho do Titular. O vice tem que tirar suas vantagens, cargos e comissões para seus familiares, sem criar problemas. Esse vice-governador do Rio Grande do Sul (Paulo Afonso Feijó)é uma aberração, uma exceção à regra nacional.
Com a classe política e as instituições que tem o Brasil não se pode adotar o parlamentarismo. Com os acertos e as maracutaias já imaginaram o tipo de Primeiro Ministro que o Congresso Nacional elegeria a cada seis meses? Para esse tamanho de país o bom mesmo é termos dois presidentes. Um para ficar viajando, conhecer os continentes, fazer discursos, e o outro para administrar o dia-a-dia da nação que, moral, social e ecologicamente, segue ladeira abaixo. Já nas cidades, em fase terminal, como São Paulo, a dupla Marta/Erundina, ambas de olho em postos mais altos, pode ser a pá de cal do que resta da urbanidade paulistana.
Para a escolha do vice-prefeito das próximas eleições municipais brasileiras o povo não palpita, não mete a colher e nem sabe quem foi escolhido para ser o vice de sua cidade, de sua rua, do dia-a-dia de sua vida. E ninguém, nem mesmo o presidente Lula que bradava aos ventos que como presidente do país faria a reforma política, fala no assunto. É melhor deixar como está para ver como é que fica.
Jota Alves foi Secretário de Governo em Mato Grosso. Criou o Dia do Brasil nos Estados Unidos. Eleito o Cronista do Ano pela Associação Brasileira de Imprensa Internacional. alves-jota@uol.com.br
Jota Alves fundou o jornal The Brasi-lians em New York. Criou o Dia do Brasil nos Estados Unidos. Foi Secretário de Governo em Mato Grosso. alves-jota@uol.com.br
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