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07/08/08 Opinião
 

O bebê de Ana Júlia

Os santos sendo louvados, as divindades festejadas, os sermões cada vez mais altos, o carimbó em alto e bom som, jovens pobres e ricos na roda viva da folia, os políticos presentes na marcação de presença e de favores, e as caixinhas com recém nascidos mortos empilhadas na carroça. Quantos bebês morreram durantes as festas juninas em Belém? Os números foram manipulados e escondidos. Apenas sete. Depois dez. Anunciaram dezessete. Fechamos o mês de junho com vinte e dois mortos.
E no semestre que passou? E no ano passado? Louvam santos e matam anji-nhos. Infanticídio? Que nada, dizem gestores públicos e políticos de Belém. Pura coincidência. Infortúnio. O inesperado. O inevitável. Com o país em festa, com as TVs faturando com as cores, sons e tradições dos santos dos milagres do casamento, da chuva, da festança e da floresta, a “morte” dos recém nascidos foi apenas mais uma notícia entre as tantas de assassinatos bárbaros no trânsito, na zona rural, nas cidades.

Crueldade ou banalidade? As explicações dos administradores da Santa Casa de Misericórdia de Belém, curtas, sem nenhum toque de sentimento, de vergonha, de remorso, de humanismo, é síntese da banalidade, da crueldade, da indiferença, que marcam as relações pessoais no Brasil de hoje. Ana Júlia Carepa, governadora do Pará, repete as lições de seu Mestre do Planalto. Ela nunca sabe o que acontece nas prisões do Estado que governa. Todos da área de segurança, do serviço social, sabiam que uma menina era objeto sexual de muitos homens num presídio. O carcereiro sabia. O sargento sabia. O soldado sabia. O dono do barzinho próximo sabia. O entregador de regalias sabia. O delegado sabia. Ana Júlia não sabia. Como não sabe e não ouviu dizer que há mais de cem pessoas marcadas para morrer no Pará por lutarem pela preservação das florestas, contra a exploração dos pobres das cidades e dos caboclos miseráveis e doentes de sua parte da Amazônia. Que meninas e meninos são negociados nos mercados, nas barrancas dos rios e igarapés. Ana Júlia, aluna exemplar do mago petista, dá desculpas “ideológicas”, acena com ações “rápidas e eficazes”.

Rosemary’s baby foi o filme que lançou Jane Fonda ao estrelato. Fosse a nossa grande mídia sintonizada com a realidade nacional, não tivesse empanzinando a população com banalidades e escapes, a matança de recém-nascidos em Belém daria uma Reportagem Especial, o Grande Escândalo do Mês, A Tragédia Fantástica do domingo. Ana Júlia, a nossa atriz-governadora, ganharia da Rosemary-Jane Fonda. O Oscar ficaria no Pará.

Mas, ela não perde por esperar. Absurdos e aberrações se sucedem no Pará, Estado líder em delitos, infrações e crimes. Neste exato momento áreas virgens do que ainda resta da floresta paraense estão sendo desmatadas e queimadas. O contrabando de madeira continua. Líderes sindicais, religiosos, indígenas, onguistas, estão na mira dos matadores de aluguel. Gangs-ters políticos e empresariais mandam e desmandam no estado que disputa com Rondônia a liderança dos crimes ambientais e os contra a pessoa. A contaminação é geral. Não há um só setor da vida pública que não esteja sob condenação moral. A permissividade e a promiscuidade estão por toda parte. Não se sabe mais o que é regra e o que é exceção. A escória, como hienas, está faminta e procurando novas áreas e pedaços de reservas. A terra do meio é de ninguém.

Como o Estado brasileiro não tem e nunca teve uma política para a Amazônia, cada amigo do Rei faz o que bem entende. Ainda tem militar pregando a velha doutrina da segurança nacional com teorias da guerra fria assopradas a Castelo Branco e aos generais da Força Expedicionária Brasileira por Vernon Walters, o militar norte americano responsável pela conexão com os brasileiros. Achavam que cubanos barbudos iam nos invadir com armamentos soviéticos.

Não planejaram nada. Rasgaram a selva, mandaram mi-lhares de brasileiros desmatarem e queimar. Deus é brasileiro e a floresta não vai acabar nunca. E toma Transamazônica, e toma Serra Pelada, e toma matança de índios, e toma calar a boca de contestadores do regime e toma a criação de uma casta de ricos do mal e da destruição. Voltam agora com a cartilha culpando estrangeiros. È “louvável e patriótico” gritar que a Amazônia é nossa, mas nunca vão ao cerne da questão e não apontam os que de fato a estão destruindo.

Não temos Política de Segurança, não há Política de Educação, não há Política de Saúde. Há improvisos, acertos empresariais e políticos, delírios, metas e obras com fins eleitoreiros, muitas das quais serão anunciadas até outubro próximo.

Como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) deixou de lado as pesquisas da geografia humana para fornecer números das estatísticas que o governo precisa para manipular a opinião pública tentamos descobrir, sentir, adivi-nhar, onde está pior. No Pará, no Rio de Janeiro, em Pernambuco? Quem não ouviu as notícias das mortes de recém-nascidos em Recife? Água contaminada, infecção hospitalar, irresponsabilidade?

A governadora do Pará pode dormir em paz.
Não é só no Pará que recém-nascidos morrem por falta de atendimento, de médicos, leitos, remédios. Não é só no Pará que assassinam missionários (as), índios, ambientalistas. A grande educadora da população brasileira usou e abusou do caso Isabella. A concorrência selvagem encheu todos os horários ensinando e mostrando detalhes sórdidos de como jogar crianças pela janela.

A moda macabra está pegando. Filhos estão mandando matar pais. Mães estão asfixiando e afogando seus recém- nascidos e jogando-os nas latas de lixo. 
Em sendo assim que diferença faz, dez, vinte ou cem recém-nascidos mortos em Belém. Como no país todo é tempo de festa no Pará.

 

 

Jota Alves criou o Dia do Brasil nos Estados Unidos. Foi Secretário de Gover-
no em Mato Grosso. Cronista do Ano pela Associação Brasileira de Imprensa Internacional.


 
 
 
 
 

 

 

 

 
 
 
 
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