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Sem bafômetro, Lei Seca saiu “nas coxas”
O linguajar espelha bem o comportamento, o caráter, a cultura e a educação do povo de uma região, de um país. Podemos decifrar senhas e códigos de um agrupamento humano pelas expressões, piadas, apelidos, anedotas, provérbios, gírias.
Nas coxas é uma delas. Muito usada na Cuiabá de minha adolescência tem tudo a ver com o comportamento sexual da época quando era incorreto terminar a esfrega-esfrega começada no cinema ou no portão. Casar virgem, uma exi-gência e um código moral, familiar. Sexo oral, uma aberração só praticada pelas polacas ou pelas mais atrevidas da “zona”. Nos namoros e noivados ficavam-se nos entre tantos, nas coxas. Não é preciso ser antropólogo ou sociólogo ou filólogo para chegar-se a conclusões sobre que tipo de sociedade nós tínhamos e sobre quais códigos vivíamos.
O Brasil é campeão de leis feitas nas coxas. A Lei Seca para o trânsito é uma delas. Passaram o carro adiante dos bois e a estão pondo em prática com intenso noticiário, números, estatísticas. Na verdade, forçando a barra. E a grande piada é a falta de bafômetro, o apare-lhinho que decide tudo. Mais um bafão do governo de aloprados e confusos. (A gíria bafão, por exemplo, tem sido muito usada por aqui).
Quantos bafômetros têm a Policia Militar de Mato Grosso? Do Ceará? Da Bahia? De Minas Gerais? Do Rio Grande do Sul? Quantos tem a Polícia Rodoviária Federal? A safra de grãos de Mato Grosso é transportada para armazéns e portos por centenas de motoristas “acordados” pelo álcool e por estimulantes. Na nossa imensidão territorial como fiscalizar corretamente se não há o “agente da lei”: o bafômetro?
Neste exato momento infrações gravíssimas estão sendo cometidas nas estradas e ruas do Brasil. Acidentes estão acontecendo. Pessoas estão morrendo.
A tecnologia, por maior e melhor que seja, não substitui o homem. Não será um aparelhinho, já chamado pelos gays de São Paulo de “pintinho gostoso de assoprar” que vai substituir o guarda de trânsito ou o policial rodoviário. Terminal de computador no carro, comunicação via satélite, equipamentos e acessórios de alta tecnologia, sirenes, alarmes, carros velozes, são mais que necessários ao país que tem seu aparato de segurança pública em petição de miséria, ultrapassado, corrompido. Está no policial bem preparado, bem pago e bem educado, a solução de todos os nossos problemas de segurança pública, entre os quais o que mais vem matando brasileiros: o trânsito.
O Brasil é campeão de projetos, planos, programas e campanhas, criados, anunciados e iniciados, nas coxas. Praticamente, todo o “desenvolvimento e o progresso” do país tem sido aos solavancos, com improvisações, tocados pelas alucinações dos nossos muitos governantes maníacos, depressivos, narcisistas e ideologicamente confusos. Brasília é um caso de paranóia coletiva. É só olhar ao redor da capital federal e ver que ela está intoxicada por dentro e por fora. Totalmente contaminada. Sitiada por godos e visigodos públicos e privados. Bandidos de colarinho branco e de camiseta. De Mercedes e de bicicleta. Como no Rio de Janeiro - que foi para a auto destruição moral e urbana ao ser usurpado de seu histórico papel de capital do país - a promiscuidade criminal em Brasília é generalizada. Difícil saber quem é homem e quem é porco. Com Brasília floresceu a megalomania e a idolatria tupiniquim pelo carro. Neste país continente, Juscelino e sua turma optaram pelo carro como locomotiva do desenvolvimento. O delírio de grandeza, de querer fazer e ficar na história, mesmo arrebentando o país, e o consumismo copiado dos filmes e da propaganda nos transformou em suicidas coletivos. O resultado aí está. TODAS as capitais e cidades grandes e médias do Brasil estão desordenadas. As que ainda não entraram no amarelo urbano o farão em menos de dez anos. E aí, hermanos, não há bafômetro que dê jeito.
O delírio de grandeza atingiu decibéis tão altos nas viseiras do nosso subconsciente que esquecemos por completo do trem como instrumento e transporte do desenvolvimento sustentado, equilibrado, decente, humano. Tivéssemos cruzando o país em trens de carga, de passageiros, de turismo, e não estaríamos babando em aparelhinhos que, segundo alguns especialistas, podem, sim, transmitir doenças. Uns chupam o bafômetro, outros, cospem, mordem, escarram e tentam “enganá-lo” com líquidos na boca.
Somos também o campeão em leis. Há leis para tudo. Mas, não há papel, caneta, mesa, computador, telefone, office-boy, especialistas, funcionários, carros, aviões e salários para fazermos valer tantas leis. E há a corrupção, a lei maior que paira sobre todas as outras no Brasil. Sem instituições sólidas, centenárias; com um povo-cobaia aberto às mais esdrúxulas experiências, a especuladores, marqueteiros, salvadores, exorcistas; com guetos corporativistas; com os Três poderes, como patetas, rindo um do outro, com bosta nos ventiladores do Executivo, do Judiciário e do Legislativo, a Lei Seca, como tantas outras, pode não vingar. Não há policiais suficientes, não há a cultura do respeito às leis a aos contratos sociais. E o que mais temos são Al Capones querendo burlar, tirar vantagens, enriquecer rápido à custa da propina, da corrupção.
A falta de bafômetro é como a falta de cadeia. Fiscalizamos, prendemos, condenamos, mas não temos cadeias para tantos criminosos. É tudo nas coxas.
Tenho recomendado que aqui não levemos ao pé da letra. Nas coxas era uma delícia. A gente não terminava, mas era altamente erótico. Com a pressa atual quase ninguém mais faz nas coxas. Siga as leis, nada de extremos, de ir fundo, de complicar as coisas.
Fique nas coxas como nos velhos e bons tempos. É o jeitinho brasileiro e sexy de viver.
Jota Alves criou o Dia do Brasil nos Estados Unidos. Foi Secretário de Governo em Mato Grosso. Cronista do Ano pela Associação Brasileira de Imprensa Internacional.
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