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O humor brasileiro
Pelo mundo afora os brasileiros são chamados de fun people: povo alegre, divertido. Que bom que ainda sentem por nós esse good feeling. As criações e as manifestações culturais como a música, o futebol, o carnaval, nos fizeram simpáticos, hospitaleiros, amigos. A boa imagem, felizmente, continua.
Nos vinte e cinco anos de exterior, a maioria dos quais do centro da mais competitiva cidade do mundo, sei que contribui com a minha pá de areia para que o Brasil fosse sempre um destino turístico a ser visitado, um país querido e desejado. Nos muitos carnavais, shows, eventos, exposições, publicações, nunca baixamos a bola e nunca apelamos para o grotesco, o pornográfico, a mentira, o engodo. O Dia do Brasil, o maior festival brasileiro no mundo, com um público circulante de um milhão de pessoas, aproximadamente, é um testemunho vivo dessa admiração pelo Brasil
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Como roupa suja se lava em casa, dei-xemos assim. Mas, é preciso reconhecer e divulgar que o brasileiro está perdendo o senso de humor, qualidade que sempre nos distinguiu entre os demais povos. É uma pena, uma lástima, uma tragédia nacional.
Dercy Gonçalves foi uma das raridades humorísticas do Brasil. Oito décadas de palco, deboche, piada, gozação, curtição, crítica. Com ela foi-se um jeito de ser brasileiro que se perdeu nas mudanças trágicas por que passa a nação e seu povo. Costinha, Zé Vasconcellos, Oscarito, Grande Otello, e o brasileiríssimo Chico Anísio, fazem falta. Hoje são poucas as mulheres na difícil arte de fazer rir. Mas já tivemos muitas e boas.
É horrível ver o brasileiro mais carrancudo, mais cara fechada, menos sorridente, menos brincalhão, e irradiando vibrações ruins. Também pudera, estamos cada vez mais cercados, intimidados, medrosos, acuados. Mais e mais estamos vivendo em jaulas urbanas, em fortalezas de cimento, ferro e vidro. Mais e mais nos comunicamos por celular e internet. Perdemos o contato pessoal, acabou-se a piada, o apelido, a brincadeira, o companheirismo. Uma nação de jovens envelhece.
O humor televisivo é pasteurizado, frio, repetitivo e há muito plágio, muita cópia, pouquíssimos originais. Não se faz mais crítica política, o termômetro ou o bafômetro do povo auferir seus dirigentes. Os criadores e redatores de textos humorísticos estão cada vez mais escassos e sem substitutos. As piadas e as brincadeiras são de bêbado e de bicha. Ambas, urbana, moral e ambientalmente incorretas, principalmente, quando o país tenta enfrentar um de seus maiores e mais perigosos “criminosos”: o trânsito.
A Lei Seca e outras só vingarão se o esforço e o empenho forem gerais. “Beber até cair, levantar e beber mais, até cair” e as “latinhas, latinhas” são músicas que popularizam o consumo de bebidas alcoólicas, glamourizam o bêbado “caindo de amor” e ajudam a provocar centenas de acidentes dos que saem dos rodeios, raives, shows e exposições travados pelo álcool. O homo fobia e seus muitos meios de humilhar e menosprezar homossexuais masculinos e femininos são peças de um humor velho e ultrapassado.
Neste nosso país tão grande e de tantas peculiaridades regionais é de uma pobreza colossal o que apresentam nas novelas, shows, programas dominicais da “família” e nos vespertinos cheios de “psicólogas, psiquiatras, conselheiras/os” sentimentais, familiares. Dez vezes os causos dos caipiras de antigamente do que as piadas, provérbios e os textos de auto ajuda dos programas de Rádios matinais de atualmente.
Até em Cuiabá com menos de um mi-lhão de pessoas, com muito verde em seu redor, com dezenas de aspectos positivos, vê-se rapazes de cara amarrada, assustados. A pior coisa que pode acontecer a uma mulher que se quer moderna, atuante, vencedora, é perder o senso de humor e a beleza do sorriso. Uma das razões do sucesso das brasileiras no exterior está no sorriso e na risada, que consolidam o charme, a competência profissional e a alegria de viver.
Precisamos cuidar para que o bom humor e o sorriso não desapareçam entre nós.
Jota Alves criou o Dia do Brasil nos Estados Unidos. Foi Secretário de Go-verno em Mato Grosso. Eleito o Cronista do Ano pela Associação Brasileira de Imprensa Internacional. alves-jota@ uol.com.br
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