A presença de brasileiros entre as vítimas da carnificina promovida pelos traficantes mexicanos, na semana passada, brasileiros esses que supostamente caíram em mãos desses assassinos
impiedosos para tentarem receber ajuda na travessia ilegal para os Estados Unidos, é mais um episódio amargo e tenebroso do momento em que vivemos.
Como se não bastassem as perseguições e injustiças que a causa pró-imigrante vem sofrendo dentro dos Estados Unidos, episódios como esse ainda alimentam - por puro joguete político e demagógico – o discurso da extremadireita e mesmo de outros setores antes mais progressistas que parecem ter encontrado na causa anti-imigratória, uma das “saídas políticas” da radicalização.
Se a causa em favor dos imigrantes foi um dia, de fato, parte da agenda reformista e progressista do Presidente Barack Obama, certamente ele e seus ineptos assessores nessa área, devem estar agora muito assustados com a atitude imobilista que adotaram nesses dois anos de mandato.
Com a progressão da crise econômica, a possibilidade de uma maior base de apoio por parte dos norte-americanos à reforma imigratória, que já era “difícil em tempos menos difíceis”, ficou ainda mais improvável. Priorizando outras questões, Obama e seu gabinete foram “empurrando com a barriga” a questão imigratória.
Nem parece um governo que se opôs aos 8 anos de Bush e prometia uma mudança de fato nesse e em outros “problemas crônicos” da nação norte-americana.
Aliás, há que se fazer justiça a Bush, já que, mesmo sendo republicano e sabendo a ojeriza dos seus companheiros de partido à causa dos ilegais, apresentou por duas vezes um projeto de reforma que teria solucionado a vida de mais de 80% dos indocumentados de então.
A crise econômica, que se arrasta e pode se arrastar por mais alguns indesejáveis meses, vem sendo o combustível sonhado pelos inimigos da reforma imigratória e já há, entre os mais radicais aliados aos “profetas do neo-nacionalismo norte-americano”, como o apresentador de TV, Glenn Back, que acredita que até mesmo uma deportação em massa é possível.
Claro que ninguém de sã consciência sequer imagina a possibilidade dos Estados Unidos deportarem 12, 13, 14 milhões de pessoas. Essa alternativa sempre foi tida como irrealizável.
Até impensável. Parece que na loucura do radicalismo que procura “demonizar” os imigrantes, essa impossibilidade já não seria tão impossível assim.
Mais do que nunca os imigrantes ilegais devem se organizar e se fazer representar de todas as maneiras legais e constitucionais, de forma a defender seus direitos (que existem) e acreditar que a Democracia norte-americana lhe garantirá instrumentos para lutar pela permanência, legalização e continuidade do sonho pelo qual muitos arriscaram suas vidas, e em busca do qual muitos trabalham com dignidade neste país.
Sabemos que essa não é uma alternativa fácil e que, especialmente os imigrantes ilegais brasileiros nos Estados Unidos, estão colocando na balança, atualmente, de um lado todos os preços a pagar em uma eventual luta para permanecer nos Estados Unidos e, do outro, retornar ao Brasil e reiniciar sua vida em um momento em que se afirma estar o Brasil na sua fase mais próspera.
Mas há milhares de famílias brasileiras formadas por imigrantes ilegais e seus filhos, nascidos aqui e, por conseguinte, cidadãos norte-americanos, que têm muitas razões para lutar pela permanência. Motivos que vão além das facilidades e possibilidades que o Brasil de agora os oferece.
É a vida de seus filhos aqui nascidos ou há muitos anos já integrados ao “american way of life” e o que essas famílias já construíram aqui de patrimônio e conquistas pessoais e profissionais, fatores capitais e que inspiram muitos a seguir lutando.
A luta que se avizinha é complexa, mas há esperança. O panorama neste momento é dos mais frustrantes dos últimos anos, mas além do imobilismo do governo Obama e da massiva onda anti-imigrante, há enormes setores da sociedade norte-americana, cerca de 40% de todo o país, que apoiam claramente uma solução que regularize os indocumentados e crie um caminho rumo à cidadania.
Nós, brasileiros, ainda não temos uma história de luta comum em torno de objetivos políticos. Nossa real democracia ainda é jovem e mesmo assim, sustentada por uma classe política corrupta e apátrida. Mesmo assim, estamos progredindo e os que aqui vivem, já devem ter aprendido que, na América, pode se lutar pelos seus ideias e seus direitos.
A vitória é possível e depende do esforço e conscientização de cada um de nós, imigrantes, legais ou ilegais.
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