Amor, desfeita do ego

Por Adriana Tanese Nogueira

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Numa sessão individual que complementava o trabalho terapêutico que o casal estava fazendo comigo, o marido chegou à conclusão de que amar é o que acabava com ele. Se não amasse não estaria com ela, já que havia tantas brigas, se não amasse estaria mais tranquilo. Pois é, sintetizei: amar é a desfeita do ego. E ele nunca mais apareceu. Não quis “perder”. A dimensão psicológica do amor é uma função feminina porque como bem identificou Jung, o feminino é Eros, ou seja a função de relação. Relacionar-se quer dizer abrir-se ao outro. As mulheres têm exercido esse papel por milênios. A maternidade treina para esta abertura, mesmo uma mulher sem filhos tem em si a genética e os arquétipos prontos para serem ativados e agir em qualquer idade e situação. Está inscrito em nós. O homens também tem sua dose de feminino, quem mais quem menos (e isso nada tem a ver com homossexualidade), mas sua identidade se colocar em outro lugar, no pensamento, nas ideias (cultura, mentalidade, mente, racionalidade, ideais, preconceitos... etc.) A abertura ao outro (amigos, familiares, filhos, marido, esposa, etc.) implica que devemos encontrar um equilíbrio entre as exigências naturais de nosso eu e a exigências naturais do eu do outro. O ego é uma dimensão psíquica em direta oposição ao amor pela simples razão que o ego está construído para se manter distinto e separado a despeito das invasões internas (emoções) e externas. O ego é como uma torre projetada para não cair. Quanto mais sólidas forem suas paredes mais firme será. Mais grossas suas paredes mais inalcançável o que está dentro será. Dentro está a subjetividade. Um ego forte é um ego mais capacitado para determinadas tarefas, sobretudo em tempos de necessidade, guerra, luta, durezas e desafios que exigem vencer, muitas vezes a qualquer custa porque é “vida ou morte”. O ego forte é um ego conquistador no mundo material. Um ego “fraco” é como uma torre com paredes “porosas”: troca informações com o ambiente mas também pode ser invadido facilmente. A porosidade permite abertura, portanto fertilização. Permite não só receber como dar, pois dentro da torre de marfim nada entra mas também nada sai. A troca favorece o crescimento pessoal e estimula a capacidade de discernimento, pois sem tudo que “entra” é alimento, há também “bactérias”. Ao se relacionar com o ambiente, o ego pode ficar fragilizado. Se deparará necessariamente também com equívocos e desavenças, poderá cair doente ou abatido. Enquanto isso o ego forte em sua torre de marfim conquista o mundo, insensível (ou assim parece) a tudo. Ele passa por cima dos “fracos”, despreza a sensibilidade porque esta “enfraquece”. Continuará assim até ter a sorte ou azar, depende do ponto de vista (se da evolução ou do próprio ego), de amar. O amor rompe as separações. O amor invade. Toma o liderança. O amor coloca o ego numa posição de “fragilidade” porque obriga a sentir. O amor é uma desfeita do ego. Penetra pelas paredes mais grossas e coloca o ego-egoísta com as costas contra suas paredes de marfim. E aí, meu cara? O amor obriga a aprender a abrir-se ao outro, a olhar para além do próprio umbigo. De dentro de sua torre de marfim, o ego se “relacionava” no sentido utilitário: o outro existe para lhe ser útil. No amor, o outro é Sujeito. O outro tem valores, prioridades, necessidades. O outro é Outro, incontrolável e não manipulável. Esta é a crise final. Consuma-se uma batalha fatal: vida ou morte do amor. Vida ou morte da torre de marfim. E o ego? Transformação ou estagnação.