Empresas brasileiras buscam o Paraguai, mas mantêm a Flórida no radar em meio a falhas internas de gestão

Por

coluna

O Paraguai deixou de ser apenas um destino comercial de fronteira para se consolidar como um polo industrial estratégico para empresas brasileiras. Dados do governo paraguaio indicam que mais de 200 companhias do Brasil transferiram total ou parcialmente suas operações para o país, principalmente por meio do regime conhecido como Lei de Maquila, que permite a produção com carga tributária reduzida, isenção sobre importação de insumos e menor burocracia trabalhista.

Segundo o Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, o modelo atrai sobretudo indústrias intensivas em mão de obra e energia. Casos emblemáticos incluem a Lupo, que anunciou sua primeira fábrica fora do Brasil em território paraguaio, e a Buddemeyer, tradicional no setor de cama, mesa e banho. Reportagens especializadas apontam que o custo de produção no Paraguai pode ser até 30% menor do que no Brasil, quando considerados impostos, encargos e energia.

Esse movimento não ocorre de forma isolada. Ele está diretamente relacionado ao agravamento do chamado "Custo Brasil", intensificado nos últimos anos por uma combinação de má administração pública, insegurança regulatória e ausência de reformas estruturais efetivas. Empresários relatam que a instabilidade nas regras, o excesso de burocracia e a dificuldade de planejamento de longo prazo corroeram a confiança de quem produz no país. A percepção dominante é de que o atual ambiente administrativo falhou em criar previsibilidade mínima para investimentos, empurrando empresas para decisões defensivas.

Críticas recorrentes apontam ainda que a condução econômica marcada por improviso fiscal, expansão do gasto público e retórica hostil ao setor produtivo ampliou o risco percebido pelos investidores. Na prática, a migração parcial da produção passou a ser encarada como estratégia de sobrevivência, e não apenas como busca por vantagens tributárias. O deslocamento para o Paraguai funciona, nesse cenário, como válvula de escape diante de um ambiente interno cada vez menos competitivo.

Apesar do avanço do Paraguai como polo industrial, a Flórida segue como um dos destinos mais procurados por empresas brasileiras, sobretudo aquelas ligadas a serviços, tecnologia, saúde, logística, educação e estruturas de holdings. O exercício comparativo entre os dois destinos mostra que os movimentos não são excludentes, mas complementares. Enquanto o Paraguai oferece baixo custo produtivo, a Flórida entrega acesso direto ao maior mercado consumidor do mundo, segurança jurídica, previsibilidade regulatória e um sistema financeiro sólido.

Segundo dados do U.S. Census Bureau e de câmaras de comércio brasileiras nos Estados Unidos, cidades como Miami, Orlando e Fort Lauderdale continuam atraindo empresas brasileiras para a instalação de sedes administrativas, centros de distribuição e operações comerciais, mesmo com custos operacionais mais elevados. O que pesa, nesse caso, é a estabilidade institucional e a clareza das regras.

Na prática, consolida-se um modelo híbrido: produção industrial no Paraguai e estrutura corporativa ou comercial na Flórida. Essa combinação permite reduzir custos sem abrir mão de presença em um ambiente institucional mais maduro e integrado aos mercados globais. O setor de moda é um dos mais representativos desse arranjo, com grupos como a Guararapes, controladora da Riachuelo, estruturando parte da produção no Paraguai por meio do regime de maquila.

Empresas de outros segmentos seguem o mesmo caminho. A Kidy Calçados e o grupo de iluminação Koumei instalaram unidades industriais em cidades como Ciudad del Este e Hernandarias, hoje entre os principais polos de atração de capital estrangeiro no Paraguai.

Para o Paraguai, o movimento representa geração de empregos, transferência de tecnologia e avanço no processo de industrialização. Para o Brasil, o fenômeno funciona como um alerta claro sobre a urgência de rever seu ambiente de negócios, sob pena de continuar perdendo competitividade regional.

O avanço do Paraguai como destino industrial e a permanência da Flórida como hub estratégico não são fenômenos passageiros, mas respostas racionais do capital a incentivos concretos. Empresas não migram por ideologia, patriotismo ou discurso político, mas por previsibilidade, custo, segurança jurídica e retorno. Enquanto o Paraguai oferece eficiência produtiva e simplicidade fiscal, a Flórida garante estabilidade institucional e acesso a mercados globais. Já o Brasil, ao não enfrentar de forma consistente seus gargalos estruturais, acaba empurrando parte relevante do seu setor produtivo para fora de suas fronteiras.

Se não houver uma mudança real na condução administrativa, com foco em reformas, simplificação tributária e respeito ao ambiente de negócios, o país seguirá assistindo a esse movimento de forma recorrente. Não se trata de um êxodo definitivo, mas de um reposicionamento estratégico que tende a se aprofundar. No fim das contas, o capital apenas faz o que sempre fez: vai para onde encontra menos obstáculos e mais condições de crescer.