Mesmo com Empresas Quebradas, o Custo Financeiro Continua a Subir no Brasil 

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Selic recua para 14,25%, mas analistas alertam: ciclo de cortes pode estar no fim — e o crédito caro já deixou rastro de insolvência no tecido empresarial

O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou na última quarta-feira, 17 de junho, a redução da taxa Selic para 14,25% ao ano a terceira queda consecutiva após um ciclo de aperto que manteve os juros básicos em 15% ao ano por quase um ano, o patamar mais alto em quase duas décadas. A notícia, recebida com alívio por parcelas do mercado, esconde, no entanto, uma realidade que corrói silenciosamente as bases da economia: para milhares de empresas brasileiras, o corte chegou tarde demais.

Juros que sufocam, inflação que não cede

Os dados do mercado financeiro desta semana revelam um cenário paradoxal: ao mesmo tempo em que o Banco Central sinaliza afrouxamento monetário, as projeções de inflação seguem subindo pelo décimo quinto boletim Focus consecutivo, agora em 5,33% para o fechamento de 2026 acima do teto da meta de 4,5% fixada pelo Conselho Monetário Nacional. O IPCA acumulado em 12 meses já atingiu 4,72% em maio, pressionado principalmente pelo encarecimento de alimentos e combustíveis, agravados pelos desdobramentos do conflito no Oriente Médio.

Para o empresário que contratou crédito em 2025, quando a Selic esteve no pico, a conta já está paga muitas vezes com o fechamento das portas. O número de pedidos de recuperação judicial no Brasil saltou nos últimos 18 meses, reflexo direto do encarecimento brutal do crédito. Setores como o varejo, construção civil e pequenas indústrias acumularam passivos financeiros incompatíveis com a receita, pressionados ainda pela queda do consumo e pela elevação dos custos de insumos.

O dilema do Banco Central: cortar ou pausar?

O debate entre os principais bancos e gestoras do país se acirra em torno de uma pergunta central: há espaço para mais cortes? O BTG Pactual e o Bank of America enxergam junho como o ponto final do ciclo de afrouxamento. O Itaú Unibanco e a XP Investimentos apostam em um último ajuste de 0,25 ponto percentual em agosto, encerrando o ano com a Selic em 14%. O mercado, por sua vez, elevou a estimativa da taxa terminal para 14% ao ano, revisando para cima sua projeção anterior de 13,75%.

O próprio Copom reconheceu, em seu comunicado, que o cenário segue "marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas e pressões no mercado de trabalho". Com o desemprego recuando para a faixa de 5,5% a 5,8% e o PIB do primeiro trimestre de 2026 avançando 1,1% na margem impulsionado em grande parte por estímulos fiscais do governo federal , o Banco Central se vê diante de uma equação difícil: estimular sem inflamar.

Crescimento com ressalvas

Instituições como Itaú e BNP Paribas revisaram para cima suas projeções de crescimento para 2,1% e 2,3% do PIB em 2026, respectivamente números que, em outra conjuntura, seriam motivo de otimismo. Entretanto, economistas alertam que esse desempenho está artificialmente sustentado por injeções do governo, e que o impulso fiscal elevado adia, sem eliminar, os ajustes estruturais necessários. O risco de um crescimento sem fundamentos sólidos é uma armadilha que o Brasil conhece de perto.

Enquanto o debate sobre décimos de ponto percentual domina Brasília e os pregões financeiros, no chão de fábrica e nos balcões do varejo, a realidade é mais crua: o crédito ainda está caro, o consumidor ainda está endividado, e a recuperação que o mercado projeta ainda não chegou para quem mais precisa.

Fontes: Agência Brasil, Boletim Focus/BCB, Bloomberg Línea, InfoMoney