A estranha alegria do brasileiro à derrota da Argentina

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Existe um fenômeno curioso no Brasil. Para muitos brasileiros, ver a Argentina perder provoca mais alegria do que ver o próprio Brasil vencer. É como se a rivalidade esportiva tivesse se transformado em uma incapacidade de reconhecer qualquer mérito do país vizinho, mesmo quando os números contam uma história diferente.

A Argentina conquistou a Copa do Mundo de 2022, a Copa América de 2024 e agora voltou ao topo do futebol mundial em 2026. Enquanto isso, boa parte das redes sociais brasileiras permaneceu concentrada em memes, provocações e na esperança de uma derrota argentina. O curioso é que, fora dos gramados, outro jogo começou a ser disputado: o confronto entre dois modelos econômicos completamente opostos.

Quando Javier Milei assumiu a presidência da Argentina, em dezembro de 2023, encontrou um país devastado economicamente. A inflação anual ultrapassava 200%, o déficit fiscal consumia as contas públicas, as reservas internacionais estavam em situação crítica e o Estado havia atingido um tamanho considerado insustentável por diversos economistas.

Sua resposta foi radical. Reduziu os ministérios de 18 para 9, promoveu cortes de dezenas de milhares de cargos públicos, eliminou subsídios, reduziu despesas federais e iniciou um amplo programa de desregulamentação econômica.

No Brasil, o caminho seguido pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva foi praticamente o inverso. A aposta concentrou-se no aumento dos investimentos públicos, expansão dos programas sociais e maior participação do Estado na economia.

Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), embora o Brasil tenha apresentado crescimento econômico consistente, o país continua enfrentando desafios fiscais importantes. O organismo destaca que a inflação permanece acima da meta estabelecida pelo Banco Central, projeta índices próximos de 5% e recomenda novas medidas para controlar o crescimento da dívida pública e reduzir o peso dos gastos obrigatórios.Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a Argentina continua apresentando um Índice de Desenvolvimento Humano superior ao brasileiro. O país vizinho mantém melhores indicadores médios de expectativa de vida, escolaridade e renda per capita, permanecendo entre os mais bem posicionados da América Latina.

Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) mostram que a taxa de homicídios da Argentina permanece significativamente inferior à brasileira. Enquanto o Brasil ainda convive com níveis elevados de violência letal em diversas regiões, a Argentina figura entre os países mais seguros da América do Sul nesse indicador.

Segundo o Banco Mundial, o ambiente de negócios argentino passou por profundas reformas voltadas à redução da burocracia, abertura econômica e incentivo ao investimento privado.

Já o Brasil continua sendo reconhecido pelo tamanho de seu mercado consumidor, mas ainda enfrenta desafios históricos relacionados à complexidade tributária, insegurança jurídica e elevado custo regulatório.

Nada disso transforma Milei em um governante perfeito, nem faz da Argentina um modelo acabado de sucesso.

O país ainda enfrenta pobreza elevada, perda de renda acumulada ao longo de anos e enormes desafios sociais. Da mesma forma, seria injusto ignorar que o Brasil possui uma economia mais diversificada, um mercado interno robusto e instituições democráticas consolidadas.

Torcer contra a Argentina no futebol faz parte da rivalidade esportiva.

Ignorar indicadores econômicos, fiscais e sociais apenas porque eles contrariam preferências políticas ou nacionalistas não é patriotismo. É cegueira ideológica.

Segue o jogo!