Quando o discurso do poder alimenta a divisão

Por Fernanda Cirino

Fernanda Cirino, editora-chefe do Gazeta News

Há momentos em que as palavras de um presidente deixam de ser apenas retórica política e passam a revelar algo mais profundo sobre a forma como o poder enxerga o próprio país. Foi o que aconteceu quando Donald Trump, durante um comício em Nebraska, citou Los Angeles e San Diego ao falar sobre a guerra com o Irã. No mesmo trecho em que dizia que os custos do conflito eram um "pequeno preço a pagar" pela segurança, afirmou que o Irã poderia "destruir" cidades como Los Angeles e San Diego.

A Casa Branca reagiu dizendo que Trump não defendia ataques contra cidades americanas, mas tentava argumentar que suas ações impediriam um Irã nuclear de ameaçar os Estados Unidos. A explicação importa. Mas não apaga o peso das palavras escolhidas. Quando um presidente fala, especialmente sobre guerra, não existe frase sem consequência.

Los Angeles e San Diego são cidades americanas habitadas por milhões de pessoas. San Diego, além disso, abriga uma das maiores concentrações militares do país, com bases da Marinha, dos Fuzileiros Navais e da Guarda Costeira e cerca de 115 mil militares da ativa na região. São homens e mulheres que servem justamente à defesa dos Estados Unidos. Tratá-los, ainda que em uma fala confusa ou provocativa, como parte de um possível "preço" é incompatível com a responsabilidade que se espera de um comandante em chefe.

Esse episódio também precisa ser visto dentro de um padrão de retórica política baseado no confronto. E os imigrantes conhecem bem o peso desse discurso.

Os Estados Unidos precisam de fronteiras organizadas, fiscalização eficiente e regras migratórias que sejam cumpridas. A imigração ilegal exige controle e responsabilidade. Isso é defendido inclusive por muitos imigrantes que vivem legalmente no país. O que não pode ser confundido com segurança é discriminação, perseguição ou a tentativa de transformar toda uma comunidade em símbolo dos problemas nacionais.

O governo fala repetidamente sobre crimes e custos relacionados à imigração, mas raramente dedica o mesmo espaço aos milhões que trabalham, pagam impostos, empreendem, cuidam de famílias, constroem casas, movimentam setores inteiros da economia e servem às Forças Armadas. Desde 2002, mais de 148 mil integrantes das Forças Armadas americanas foram naturalizados. Até beneficiários do DACA chegaram a servir por programas militares específicos.

Quando uma liderança repete que determinado grupo é o problema, quem nunca estudou imigração ou compreendeu como funciona o sistema passa a enxergar o tema por uma única lente. É assim que o preconceito encontra espaço para crescer.

E agora, com as eleições de meio de mandato se aproximando, a escalada verbal pode produzir o efeito contrário ao pretendido. Eleitores podem apoiar fronteiras fortes, políticas migratórias rígidas e posições conservadoras. Mas isso não significa que aceitem ver cidades americanas, militares, imigrantes ou adversários políticos tratados como descartáveis.

Um presidente deveria usar sua voz para proteger, unir e apresentar resultados. Quando o ataque se torna a mensagem dominante, surge uma pergunta inevitável: até onde essa retórica pode chegar? E outra, talvez ainda mais importante em ano eleitoral: até onde os americanos estão dispostos a acompanhá-la?