Muito além do jogo bonito: brasileiros constroem futebol de base nos Emirados
Em um mercado de academias que nunca cresceu tanto, treinadores brasileiros chegam aos Emirados trazendo mais do que técnica — trazem uma filosofia de formação humana que vai além das quatro linhas.
O futebol de base nos Emirados nunca foi tão disputado
Existe um número que resume bem o que está acontecendo com o futebol de base nos Emirados Árabes Unidos: mais de 12.000 jogadores de mais de 90 nacionalidades participaram do Dubai Open Football Academies Tournament na temporada 2025-26, tornando-o um dos maiores torneios de futebol juvenil da região. São crianças e adolescentes de todas as partes do mundo, treinando em campos de Dubai e Sharjah, disputando campeonatos locais com estrutura de competição internacional. Gulf News Dubai concentra mais de 11 academias internacionais de futebol, com nomes como FC Barcelona, Manchester City, Juventus, AC Milan, Real Madrid e LaLiga já instalados no país. É um mercado competitivo, movimentado e em rápida evolução. E dentro desse ecossistema, um grupo de treinadores brasileiros encontrou espaço para construir algo próprio.
Não vieram apenas como funcionários de clubes europeus. Vieram com projetos, com história de vida e com uma visão de futebol que vai muito além das quatro linhas.
Uma presença que tem raízes
A relação entre o Brasil e o futebol dos Emirados não é nova. Desde pelo menos 2007, grupos de treinadores brasileiros já eram contratados por clubes profissionais dos Emirados para trabalhar no desenvolvimento de atletas, levando metodologia, preparação física e formação de base com a credibilidade de uma nação pentacampeã. A imagem do futebol brasileiro sempre abriu portas por aqui. E com o tempo, alguns desses profissionais deixaram de ser contratados e passaram a empreender.
É esse movimento que começa a ganhar forma visível no mercado de academias juvenis dos Emirados. Treinadores brasileiros com trajetória internacional chegam ao país, enxergam um terreno fértil para o desenvolvimento esportivo e decidem criar algo próprio — projetos com identidade, metodologia e visão de longo prazo.
O exemplo da Brazilian Talent
Um dos casos mais concretos desse fenômeno é o da Brazilian Talent, academia fundada em Dubai pelo treinador Cesar, ex-goleiro formado nas categorias de base do Paulista Futebol Clube, em Jundiaí. A trajetória de Cesar como treinador passou pelo Brasil, Estados Unidos, Canadá e Espanha, até chegar aos Emirados em 2019.
"Vim para Dubai porque enxerguei um enorme potencial para desenvolver um projeto de excelência", conta ele. "Os Emirados valorizam educação, esporte e inovação, e percebi que era o ambiente ideal para construir algo sólido e duradouro."
A Brazilian Talent está na quarta temporada, atende crianças e adolescentes dos 3 aos 17 anos, de diversas nacionalidades — o que, por si só, já reflete a diversidade dos Emirados. Mas o diferencial que Cesar faz questão de destacar não está na origem da marca. Está na filosofia.
"Muitos projetos focam em vender uma imagem de profissionalismo e criar expectativas irreais para pais e atletas, enquanto o verdadeiro desenvolvimento da criança fica em segundo plano", explica. "Costumo dizer que o futebol é diferente de uma universidade. Você pode treinar por muitos anos, evoluir muito e ainda assim não se tornar um jogador profissional. Nosso papel nunca foi vender esse sonho como uma promessa."
Essa honestidade com as famílias é parte central do projeto. A metodologia da Brazilian Talent trabalha desenvolvimento técnico, tático, físico, mental e humano — cinco dimensões que, no discurso de Cesar, resumem-se num lema simples: aprender, entender, praticar, melhorar, competir.
As viagens internacionais fazem parte do modelo. A academia leva atletas para o exterior com um objetivo que vai além de jogar partidas: visitar universidades, conhecer culturas diferentes, entender como o futebol pode abrir portas para uma formação acadêmica. "Queremos que nossos alunos conheçam diferentes realidades e voltem para casa não apenas como atletas melhores, mas como pessoas mais preparadas para o mundo", diz Cesar.
O que o DNA brasileiro significa, na prática
Quando um treinador brasileiro fala em "metodologia brasileira", a tendência é associar isso apenas à habilidade técnica, à ginga, à criatividade com a bola. E esses elementos estão lá, sim. Mas quem acompanha o trabalho desses profissionais nos Emirados percebe que o diferencial vai além da estética do jogo.
O futebol brasileiro produziu, ao longo de décadas, uma cultura de formação intensa, de rua, de improviso e de competição desde cedo. Essa experiência, quando combinada com metodologias modernas aprendidas na Europa e na América do Norte, cria um perfil de treinador diferenciado: alguém que entende o jogo com profundidade técnica, mas que também sabe trabalhar o lado humano do atleta.
É esse perfil que começa a encontrar espaço nos Emirados. Não como substituto das grandes academias europeias — Barca, Juventus, Real Madrid e Ajax têm presença consolidada e estruturas robustas no país — mas como uma camada diferente dentro do ecossistema. Projetos menores, mais próximos das famílias, com identidade própria e com uma proposta que vai além do nome estampado na camiseta.
Um mercado que ainda tem muito espaço
A edição de 2025 do torneio DOFA marcou um crescimento de 9,1% na participação de jogadores e 11,6% no número de times em relação à temporada anterior. São dados que mostram um mercado em expansão consistente — e que ainda está longe de saturação.
Para quem tem projeto sólido, o espaço existe. A pergunta que cada academia precisa responder é a mesma que Cesar responde na prática todos os dias: o que você oferece além de treinos? Que tipo de formação você entrega para essa criança? Que memória essa experiência vai deixar?
No caso dos brasileiros que constroem academias nos Emirados, a resposta parece estar na combinação de competência técnica com algo mais difícil de copiar: a genuína crença de que o esporte é uma ferramenta de formação humana. Não uma promessa de carreira profissional. Um caminho de crescimento — dentro e fora do campo.
E esse caminho, nos Emirados de hoje, tem muito chão pela frente.
Nota: As informações deste artigo refletem o cenário no momento em que ele foi escrito. Em função da evolução rápida dos acontecimentos, ajustes e mudanças podem ocorrer até a data de sua publicação.