Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA enfrenta temporada de furacões com menos especialistas e falhas na coleta de dados

Após cortes de pessoal promovidos pelo governo Trump, agência contrata novos meteorologistas, mas especialistas alertam para a perda de experiência e possíveis impactos nas previsões do tempo

Por Lara Barth

Furacão Helene se intensifica em categoria 3 antes de atingir a costa da Flórida.

O Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos (National Weather Service – NWS) iniciou a temporada de furacões de 2026 em meio a um processo de reconstrução de sua equipe. Mais de um ano após perder cerca de 15% dos funcionários devido a cortes e programas de desligamento voluntário implementados pelo governo do presidente Donald Trump, a agência agora tenta preencher centenas de vagas, principalmente para profissionais em início de carreira.

Meteorologistas e ex-funcionários avaliam que a contratação de novos profissionais ajudará a reforçar a capacidade operacional da instituição. No entanto, muitos demonstram preocupação com a perda de especialistas experientes, justamente em um dos períodos mais críticos do ano para a previsão de eventos climáticos extremos.

A temporada de furacões no Atlântico começou em 1º de junho e coincide com meses de maior ocorrência de tornados, enchentes repentinas e incêndios florestais nos Estados Unidos.

Perda de experiência preocupa especialistas

Segundo Tom Fahy, diretor legislativo do sindicato que representa funcionários do NWS e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), cerca de 600 servidores deixaram a agência em 2025, a maioria deles meteorologistas e hidrólogos experientes que aderiram a programas de aposentadoria antecipada. Além disso, aproximadamente 100 funcionários em estágio probatório foram demitidos.

Dados federais analisados pela CBS News mostram que, até o fim de maio, a NOAA ainda contava com quase 300 meteorologistas e hidrólogos a menos do que possuía em janeiro de 2025.

Para Alan Gerard, meteorologista que trabalhou por 35 anos na NOAA antes de se aposentar, a renovação do quadro é natural, mas deveria ocorrer de forma gradual.

"Os novos profissionais precisam trabalhar ao lado dos mais experientes durante um período para desenvolver habilidades e conhecimento. Esse processo foi interrompido", afirmou.

Rick Thoman, especialista em clima do Alasca e ex-meteorologista da agência, destacou que estados com características climáticas complexas sofrem ainda mais com a saída dos profissionais mais antigos.

Segundo ele, prever o tempo no Alasca exige conhecimento específico que só é adquirido com anos de atuação em campo.

Contratações buscam reforçar operações

Apesar das dificuldades, o NWS afirma que o processo de contratação está avançando. Mais de 300 novos funcionários já foram incorporados à agência até o fim de junho, entre meteorologistas, hidrólogos, técnicos em radar e outros especialistas.

Somente nos dois meses anteriores, cerca de 50 profissionais começaram a trabalhar na instituição. Em maio, o órgão anunciou a abertura de mais 150 vagas para meteorologistas em início de carreira, que atuarão em centros de previsão espalhados pelo país.

Segundo Erica Cei, porta-voz do NWS, escritórios que enfrentam falta temporária de pessoal recebem apoio operacional de unidades vizinhas, garantindo a continuidade dos serviços de previsão e emissão de alertas.

A agência também informou que pretende manter as contratações conforme a necessidade.

Falhas na coleta de dados acendem alerta

Além da escassez de profissionais experientes, especialistas demonstram preocupação com a redução na coleta de dados atmosféricos considerados essenciais para os modelos de previsão.

Desde o início de 2025, diversas estações meteorológicas deixaram de lançar balões meteorológicos duas vezes ao dia, prática utilizada há décadas para coletar informações sobre temperatura, umidade, pressão e ventos em diferentes camadas da atmosfera.

Segundo o NWS, a interrupção ocorre devido a limitações temporárias de pessoal e de equipamentos.

Meteorologistas afirmam que essa diminuição compromete a qualidade das previsões, principalmente durante eventos climáticos de rápida evolução, como tempestades severas e furacões.

Rick Thoman citou como exemplo uma tempestade que atingiu o Mar de Bering em outubro do ano passado e obrigou cerca de mil pessoas a deixarem suas casas. Segundo ele, mais da metade dos lançamentos programados de balões meteorológicos não ocorreu nos dias que antecederam o fenômeno.

Embora não seja possível comprovar o impacto direto da falta desses dados, Thoman considera improvável que a redução das medições não tenha influenciado os modelos meteorológicos utilizados na previsão da trajetória da tempestade.

Especialistas avaliam que a recuperação completa da capacidade operacional do Serviço Nacional de Meteorologia dependerá não apenas da contratação de novos profissionais, mas também da reposição gradual da experiência técnica perdida e da retomada integral da coleta de dados essenciais para a previsão do tempo.

Fonte: CBS