O faxineiro que virou inspiração para brasileiros na América
Imigrante há 13 anos, ele trocou o cargo de gerente pelo balde e o pano, enfrentou preconceitos, abriu uma empresa de limpeza no Alabama e transformou a própria rotina em inspiração para milhares de seguidores nas redes sociais.
Antes do celular apoiar no tripé e do ring light acender, Lucas Galhano já está de pé. A oração é um hábito diário, assim como o planejamento da rotina. Em Gulf Shores, no Alabama, onde vive aos 31 anos, ele organiza equipes, clientes, cronogramas e, ao mesmo tempo, pensa no próximo vídeo que vai publicar como @lucasofaxineiro.
Hoje, Lucas é empresário da Deluxe Cleaning Services e influenciador digital, mas sua história começou bem longe dali — e em condições que fariam muita gente desistir antes mesmo de começar.
Natural de São Paulo (SP), Lucas chegou aos Estados Unidos há 13 anos como tantos outros brasileiros: pouco dinheiro no bolso, sem inglês e com uma certeza — precisava fazer dar certo.
Os primeiros desafios não foram apenas financeiros. Foram culturais, emocionais e legais. Entender as leis, aprender o idioma e se encaixar no mercado de trabalho exigiram dele algo que se tornaria sua marca registrada: resiliência diante dos "nãos".
Mas nada foi tão difícil quanto a decisão que mudaria sua vida.
O dia em que ele trocou o crachá pelo pano de chão
Lucas era gerente de loja em Orlando. Tinha status, cargo e estabilidade. Até que decidiu largar tudo para virar faxineiro em Miami.
"Foi o momento mais desafiador da minha jornada", resume.
Homem, imigrante, saindo de uma função considerada "de respeito" para um trabalho cercado de tabus e preconceitos sociais. Ele ouviu comentários, sentiu olhares e enfrentou julgamentos — muitos vindos de brasileiros.
Sozinho, começou a limpar casas. Montava seu próprio schedule. Pegava o que aparecia. Em 2019, no estado de Connecticut, deu os primeiros passos formais no business da limpeza. Depois, migrou para Miami, onde transformou a limpeza residencial em limpeza comercial — o modelo que sustenta sua empresa hoje.
Para Lucas, o preconceito não foi freio. Foi gasolina.
Ele entendeu rápido algo que muitos demoram anos para aceitar: trabalho digno é qualquer trabalho honesto. E mais — havia uma oportunidade gigantesca em um mercado que poucos queriam explorar.
O faxineiro virou empresário. O empresário virou criador de conteúdo. E o criador de conteúdo virou inspiração.
Quando perguntado sobre o que o move todos os dias, Lucas não cita dinheiro, seguidores ou crescimento da empresa.
Ele fala da esposa, Carolina, e da filha, Sophia.
O casamento de 12 anos, a família construída nos EUA, a cidadania americana conquistada e a fluência no inglês são, para ele, as maiores provas de que o esforço valeu a pena.
A referência vem de antes: sua mãe, que criou tudo sozinha, como mãe solteira, sem desistir diante das dificuldades. É nela que ele pensa quando lembra de um momento em que quase desistiu.
"Lembrei de onde eu vim e de onde eu estava chegando. Isso me fez permanecer."
Nas redes, @lucasofaxineiro mostra o dia a dia real da limpeza, a organização, a disciplina, os bastidores de um imigrante que construiu o próprio negócio do zero. Sem glamour, sem filtros irreais, sem promessas fáceis.
A meta agora é clara: chegar a 500 mil seguidores e se tornar o faxineiro mais conhecido dos Estados Unidos — talvez do mundo.
Mas a mensagem que ele tem para quem está começando é simples:
"Venha com mentalidade de recomeço. Aqui nada é fácil. Aceite aprender tudo do zero. Tenha humildade. Essa é a receita."
Lucas Galhano não romantiza a imigração. Ele mostra o que muita gente não quer ver: o trabalho pesado, o preconceito, os "nãos", o cansaço e a necessidade de recomeçar do zero.
Mas também mostra algo ainda mais forte: que é possível transformar um balde, um pano e muita determinação em uma empresa sólida, propósito e inspiração para milhares de pessoas.
