Ousadia de sonhar: a trajetória internacional de Carla Ricchetti

Carla Ricchetti saiu do Brasil há 22 anos, estudou em Nova York, atuou em mais de 105 países e hoje lidera investimentos em tecnologia médica e resiliência climática na International Finance Corporation, braço do Banco Mundial

Por Lara Barth

Natural de São Paulo, Carla Ricchetti (48) vive fora do Brasil há 22 anos

Aos 48 anos, morando em Washington DC e com uma trajetória que atravessa quatro continentes, Carla Ricchetti construiu uma carreira que une estratégia financeira, impacto social e propósito. Natural de São Paulo, ela vive fora do Brasil há 22 anos — período que inclui passagens pela Alemanha, uma jornada sabática pela Ásia e África, o mestrado na Columbia University, em Nova York, quatro anos entre Hong Kong e Beijing, e, atualmente, uma posição de liderança global na International Finance Corporation (IFC), braço do Grupo Banco Mundial voltado ao setor privado.

Hoje, Carla é líder global em investimentos em tecnologia médica e resiliência climática na IFC, supervisionando uma plataforma que apoia projetos que já ultrapassam US$ 15 bilhões em investimentos. Seu trabalho está na interseção entre finanças, inovação e impacto real na vida das pessoas.

Mas a trajetória começou bem antes dos fóruns globais e dos grandes números.

Ainda no Brasil, Carla iniciou a carreira em Fusões e Aquisições, com passagem por Itaú/Unibanco. Foi ali que despertou sua paixão por investimentos internacionais e mercados globais. Determinada a expandir horizontes, buscou formação fora do país e ingressou no mestrado em Assuntos Internacionais e Negócios na Columbia University.

A chegada a Nova York marcou um dos momentos mais desafiadores de sua jornada. O sistema socrático de ensino — baseado em debate intenso, argumentação e pensamento crítico — representou um choque cultural. "No início, o debate constante parecia agressivo e competitivo. Eu vinha de uma formação mais expositiva, com foco em memorização. Precisei aprender a questionar, argumentar e decidir com rapidez", relembra.

O desconforto se transformou em ferramenta de liderança. Hoje, Carla conduz negociações complexas, lidera equipes multiculturais e participa de debates estratégicos em ambientes internacionais com clareza e segurança — habilidades moldadas naquele período de adaptação.

Após o mestrado, ingressar na IFC foi um passo natural. A organização investe no setor privado de países em desenvolvimento, promovendo crescimento sustentável. Carla inicialmente atuou em energia renovável e cleantech — áreas alinhadas à sua paixão por sustentabilidade. Mas foi durante a pandemia de Covid-19 que sua carreira tomou um rumo inesperado.

Em meio à crise global de saúde, aceitou o desafio de liderar investimentos em tecnologias médicas, mesmo tendo conhecimento limitado no setor. "Percebi que o verdadeiro crescimento acontece quando nos aventuramos no desconhecido", afirma.

Sob sua liderança, a plataforma de MedTech da IFC se consolidou, com investimentos em empresas inovadoras e a criação de mecanismos financeiros para ampliar o acesso a dispositivos médicos e saúde digital. A integração de dados, inteligência artificial e tecnologias médicas passou a ser um dos pilares estratégicos de sua atuação, especialmente em regiões com acesso limitado à saúde e impactadas pelas mudanças climáticas.

"Investir em MedTech transforma vidas. Cada inovação aplicada melhora a saúde de milhões de pessoas. É isso que me faz levantar da cama todos os dias."

Ao longo de sua trajetória, Carla visitou e atuou em projetos em mais de 105 países. Viveu quatro anos na China, onde aprendeu a navegar por uma cultura de comunicação indireta, forte hierarquia e negociações baseadas em confiança pessoal. Nos Estados Unidos, adaptou-se a um ambiente direto, competitivo e altamente focado em networking e eficiência.

"Para mim, o mais importante sempre foi entender a arquitetura social, política e econômica de cada lugar e construir relações genuínas."

Mas os maiores desafios não vieram apenas do ambiente profissional.

Houve um período em que tudo parecia desmoronar ao mesmo tempo: o marido enfrentava um câncer, a enteada adolescente lidava com crises de ansiedade, a filha pequena tinha apenas dois anos e Carla assumia uma posição corporativa global de grande responsabilidade. Foram três anos de exaustão emocional e física.

"Pensei em desistir. Mas a frase da minha avó sempre voltava: 'Isso também passará.'"

A avó paterna, Daisy Brescia Ricchetti, é sua maior inspiração. Nos anos 40, recebeu uma bolsa para estudar nos Estados Unidos, mas foi impedida pelo pai devido à Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, tornou-se escritora de livros infantis e pioneira na educação fundamental no Brasil. Foi ela quem ensinou Carla a ousar e acreditar nos próprios sonhos.

"A vida é uma oportunidade de ousar" tornou-se seu mantra.

Carla acredita que sua história pode inspirar especialmente mulheres brasileiras que vivem no exterior. Para ela, estamos em um momento histórico em que mulheres devem ocupar posições de liderança e construir trajetórias globais sem abrir mão de suas raízes.

Entre as conquistas das quais mais se orgulha estão a construção de uma carreira internacional consistente, baseada não apenas em performance financeira, mas em propósito e impacto real — além de uma base familiar sólida, com três filhos, amizades espalhadas pelo mundo e equilíbrio espiritual.

Hoje, sucesso tem um significado diferente do que tinha no início da carreira. "Sucesso é viver uma vida equilibrada, crescer continuamente e deixar um legado baseado em inovação, ética e contribuição."

Para o futuro, Carla sonha em aplicar sua experiência na construção de suas próprias empresas, com foco em tecnologia, saúde, longevidade e alimentos — áreas que considera essenciais para o futuro do planeta.

Aos brasileiros que iniciam uma vida fora do país, ela aconselha: "Esteja aberto a aprender, absorver novas culturas e adaptar-se com rapidez. Fora do calor do nosso Brasil, vence quem mantém a persistência."

Da infância cercada por livros e natureza em São Paulo aos corredores do Banco Mundial, Carla Ricchetti construiu uma trajetória que combina ambição estratégica e propósito humano. Sua história prova que talento, educação e resiliência podem transformar fronteiras em pontes — e sonhos em impacto global.