Caso Liam Ramos expõe impacto das políticas migratórias sobre crianças e jovens

Dados revelam que ao menos 157 menores brasileiros foram detidos pela imigração dos EUA em 2025

Por Lara Barth

Liam Conejo Ramos, de 5 anos, foi detido pelo ICE em janeiro e libertado 10 dias depois

A imagem de um menino de 5 anos sendo abordado por agentes de imigração na porta de casa, a caminho da escola, rodou o mundo e reacendeu um debate sensível nos Estados Unidos: até onde a política migratória pode ir quando envolve crianças?

Liam Conejo Ramos, filho de um equatoriano residente em Minneapolis, foi detido em 20 de janeiro ao lado do pai por agentes do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA). Ambos haviam entrado legalmente no país como requerentes de asilo. Ainda assim, foram levados para um centro de detenção familiar em Dilley, no Texas, a mais de 1.800 quilômetros de onde moravam.

A libertação só veio dez dias depois, por decisão judicial. Ao determinar a soltura, o juiz federal Fred Biery fez uma crítica dura à condução das operações migratórias. Em sua decisão, afirmou que a busca por metas diárias de deportação não pode justificar o trauma imposto a crianças.

"O caso tem sua origem na busca mal concebida e implementada de forma incompetente pelo governo por metas diárias de deportação, aparentemente mesmo que isso exija traumatizar crianças", escreveu.

A cena da prisão, registrada por moradores, provocou protestos em Minneapolis e Saint Paul, cidades que viviam dias de tensão após operações federais de fiscalização migratória que resultaram, inclusive, na morte de dois cidadãos norte-americanos por disparos de agentes federais. Além de Liam, outros três estudantes do mesmo distrito escolar também foram detidos.

O episódio, no entanto, não é isolado

Dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação dos EUA e analisados pelo Deportation Data Project, da Universidade da Califórnia, revelam que ao menos 157 menores brasileiros foram detidos por agentes de imigração entre janeiro e outubro de 2025. Desses, 142 foram encaminhados a centros de detenção administrados pelo próprio ICE.

Os registros mostram que os menores detidos incluem desde bebês nascidos em 2024 até adolescentes de 16 e 17 anos. Meninos representaram 89 dos casos, enquanto meninas somaram 68. Apenas em Boston, no estado de Massachusetts — onde há uma grande comunidade brasileira — 53 menores foram encontrados em centros de detenção.

Segundo os dados, 114 desses menores deixaram os Estados Unidos. Não há informações oficiais sobre quantos estavam acompanhados de adultos no momento da detenção.

Especialistas em direito migratório e juvenil afirmam que o sistema de imigração dos EUA tem um "ponto cego" quando se trata de crianças e adolescentes: ele os trata como adultos.

Relatório recente divulgado pela American Immigration Lawyers Association (AILA) aponta que, somente em 2025, mais de 600 crianças foram colocadas em centros de detenção migratória — número superior ao total registrado nos quatro anos anteriores somados. A maioria foi detida ao comparecer a audiências migratórias ou por estar acompanhando adultos que foram presos.

O estudo alerta que os processos migratórios são "adultificados" e ignoram princípios básicos do sistema de justiça juvenil norte-americano, que reconhece que jovens são "categoricamente menos culpáveis" por seus atos e devem receber tratamento legal diferenciado, com foco em reabilitação e proteção de seus registros.

Na prática, porém, registros de passagens de jovens pelo sistema juvenil — muitas vezes protegidos por confidencialidade e voltados à reabilitação — vêm sendo utilizados em processos de imigração como se fossem antecedentes criminais de adultos.

Para advogados e pesquisadores, isso gera danos permanentes ao futuro de crianças e adolescentes imigrantes, que passam a carregar consequências legais desproporcionais por erros cometidos ainda na juventude — ou simplesmente por estarem ao lado de um adulto alvo de fiscalização.

O caso de Liam expôs ao público uma realidade que, em geral, permanece invisível: crianças que não são alvo direto da fiscalização migratória acabam arrastadas para um sistema desenhado sem levar em conta sua idade, seu desenvolvimento emocional e sua vulnerabilidade.

Ao libertar o menino, o juiz Fred Biery escreveu que, mesmo que o destino final de algumas dessas famílias seja a deportação, isso deveria ocorrer por meio de "uma política mais ordenada e humana do que a atualmente em vigor".

Enquanto isso, os números indicam que centenas de crianças continuam atravessando portas de centros de detenção migratória nos Estados Unidos — muitas delas sem entender por que estão ali.