ICE planeja transformar galpões gigantes em centros de detenção para imigrantes e gera preocupação crescente

Estruturas podem abrigar até 8 mil pessoas cada; autoridades locais, parlamentares e até contratadas do governo temem problemas de segurança e infraestrutura

Por Lara Barth

Instalações de centro de detenção nos Everglades

Planos do Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) para comprar e adaptar galpões industriais gigantes como centros de detenção de imigrantes estão provocando reações de preocupação entre parlamentares, moradores e até empresas que disputam os contratos para operar os espaços.

Segundo um levantamento do DHS obtido pela NBC News, algumas dessas estruturas podem abrigar até 8 mil detidos de uma vez — o dobro da capacidade da maior prisão federal do país, que comporta cerca de 4 mil presos.

Pelo menos três locais já foram adquiridos. Um deles fica na cidade de Surprise, nos arredores de Phoenix, onde o ICE pagou US$ 70 milhões por um galpão de 418 mil pés quadrados — o equivalente a sete campos de futebol. Autoridades municipais afirmaram que não foram avisadas sobre a compra.

Outro galpão foi adquirido nos arredores da Filadélfia por US$ 87,4 milhões. Um terceiro fica em San Antonio, no Texas, com quase 640 mil pés quadrados, avaliado em mais de US$ 37 milhões.

O presidente Donald Trump declarou recentemente que seu governo pode adotar um “toque mais suave” na fiscalização migratória, após agentes federais matarem dois cidadãos americanos em Minneapolis no mês passado. Ainda assim, afirmou que pretende expandir as operações de repressão migratória para mais cinco cidades.

Com o avanço dos planos de detenções em massa, grupos pró-imigrantes já organizaram protestos em estados como Colorado, Mississippi e Arizona. Em Hutchins, no Texas, líderes comunitários e autoridades estaduais protestaram contra a instalação de uma nova unidade do ICE.

O senador republicano Roger Wicker, do Mississippi, se posicionou contra a possibilidade de um centro próximo à cidade de Byhalia. “Sou a favor da fiscalização migratória, mas esse local foi planejado para desenvolvimento econômico e geração de empregos”, escreveu.

Parlamentares democratas também criticaram uma possível instalação em Roxbury, Nova Jersey. No Colorado, ativistas alertam que um centro em Hudson, a mais de 50 km de Denver, dificultaria visitas de advogados e familiares por falta de transporte público.

Em nota, um porta-voz do ICE afirmou que a agência recebeu novos recursos para ampliar o espaço de detenção, mas ainda não anunciou oficialmente novos centros. Segundo ele, os locais passarão por estudos de impacto comunitário e análise rigorosa antes da compra.

Para concorrer aos contratos, as empresas precisam já ter vínculos com a Marinha dos EUA ou parcerias com companhias que tenham esse vínculo — modelo semelhante ao adotado quando o governo construiu o maior centro de detenção em tendas no Texas.

Mesmo assim, duas empresas ouvidas pela NBC News demonstraram preocupação com a segurança e a logística. Um executivo afirmou que contratar pessoal suficiente para supervisionar mais de 2.500 detidos em áreas rurais seria extremamente difícil. Outro alertou que unidades com mais de 1.500 pessoas já representariam riscos elevados.

Atualmente, o ICE mantém mais de 70 mil imigrantes detidos em 224 instalações pelo país. A única unidade já em funcionamento nesse novo modelo, em Fort Bliss, no Texas, acumula denúncias graves: ao menos três imigrantes morreram em 44 dias, e uma das mortes foi considerada homicídio pelo legista.

Diante das denúncias, parlamentares acionaram a Justiça para garantir acesso às instalações. Nesta semana, um juiz determinou que o DHS permita visitas surpresa de congressistas aos centros de detenção.

Fonte: NBC