Copa do Mundo nos EUA tem incertezas a menos de 50 dias do pontapé inicial

Paralisação do Departamento de Segurança Interna, endurecimento das políticas migratórias e ameaças a aeroportos em "cidades-santuário" colocam em risco logística, público e clima do maior evento esportivo do planeta

Por Lara Barth

Copa do Mundo 2026 começa no dia 11 de junho

Faltando menos de 50 dias para o início da Copa do Mundo de 2026, os Estados Unidos — um dos três países-sede ao lado de México e Canadá — enfrentam uma combinação de fatores que ameaça impactar diretamente o maior evento esportivo do planeta. Entre eles estão a prolongada paralisação do Departamento de Segurança Interna (DHS), o endurecimento das políticas de imigração e a possibilidade, ainda em discussão, de suspensão do processamento de viajantes internacionais em aeroportos localizados em chamadas "cidades-santuário".

A proposta foi levantada pelo secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, que afirmou que o governo pode deixar de operar serviços alfandegários em aeroportos de cidades que não cooperam com a política migratória federal. Caso implementada, a medida afetaria diretamente hubs internacionais estratégicos como Nova York, Los Angeles, Chicago, Seattle e San Francisco — muitos deles entre as 11 cidades americanas que receberão jogos do Mundial.

Na prática, a decisão poderia interromper o fluxo de passageiros internacionais em alguns dos aeroportos mais movimentados do país, com consequências imediatas para o turismo, o comércio e, especialmente, para a Copa do Mundo.

Apenas os três principais aeroportos de Nova York receberam mais de 50 milhões de viajantes internacionais no último ano, um indicativo da escala do impacto potencial.

O debate ocorre em meio a um impasse político em Washington. Desde fevereiro, democratas e republicanos não chegam a um acordo sobre o financiamento do DHS, o que levou a uma paralisação parcial da agência — a mais longa de sua história. A falta de recursos afeta diretamente órgãos como a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) e compromete o planejamento de segurança para grandes eventos.

Especialistas apontam que o papel do governo federal é crucial na coordenação de eventos desse porte. Embora cada cidade-sede tenha sua própria estrutura, cabe ao DHS fornecer inteligência, suporte logístico e integração entre diferentes níveis de segurança.

Sem esse suporte completo, lacunas podem surgir em áreas críticas como controle de multidões, resposta a ameaças terroristas, cibersegurança e monitoramento aéreo.

Além das questões operacionais, as políticas migratórias adotadas pelo governo também levantam preocupações sobre o acesso de jogadores e torcedores ao país. Restrições de entrada afetam cidadãos de dezenas de países, incluindo nações classificadas para o torneio, como Haiti, Irã, Costa do Marfim e Senegal. Em alguns casos, torcedores simplesmente não poderão entrar nos Estados Unidos; em outros, precisarão pagar cauções de até US$ 15 mil para obter visto temporário.

A situação se torna ainda mais delicada em contextos geopolíticos específicos. A participação da seleção iraniana, por exemplo, segue cercada de incertezas devido às tensões militares envolvendo o país. Embora atletas geralmente tenham exceções em casos de restrições migratórias, declarações recentes do governo americano colocaram dúvidas sobre a segurança e viabilidade da presença da equipe em solo americano.

Mesmo quando a entrada é permitida, o ambiente pode não ser convidativo. Relatos de aumento nas inspeções de dispositivos eletrônicos por agentes de fronteira e a presença ampliada de agentes de imigração em aeroportos contribuem para uma percepção de insegurança entre viajantes. Para muitos torcedores internacionais, o receio não é apenas conseguir entrar no país, mas também o tratamento durante a estadia.

Esse cenário já reflete em números. Especialistas indicam uma queda no interesse de turistas internacionais em visitar os Estados Unidos, motivada tanto por questões políticas quanto pelo temor de experiências negativas durante a viagem. Para um evento que depende fortemente da presença global, isso pode significar estádios com lugares vazios e uma atmosfera abaixo do esperado.

Internamente, o impacto também é sentido. Trabalhadores ligados à organização dos jogos demonstram preocupação com a atuação de agentes de imigração durante o evento. Em Los Angeles, um sindicato que representa funcionários do SoFi Stadium chegou a formalizar queixas e ameaça paralisações, exigindo o embargo ao acesso de agentes do ICE nas instalações durante as partidas.

Nos bastidores, a FIFA tenta administrar a crise. Embora publicamente mantenha o discurso de que tudo está dentro do planejado, a entidade avalia alternativas para minimizar os efeitos das políticas americanas. Entre elas estaria a tentativa de negociar uma suspensão temporária de operações de imigração mais rigorosas durante o período da Copa.

A escolha da América do Norte como sede foi baseada em uma visão de integração regional, com circulação facilitada entre os três países anfitriões. No entanto, essa expectativa contrasta com a realidade atual, marcada por políticas migratórias restritivas e menor cooperação internacional.

Com 78 partidas programadas apenas nos Estados Unidos e centenas de eventos paralelos previstos ao longo de seis semanas, o sucesso da Copa depende não apenas da organização esportiva, mas também da capacidade do país de garantir acesso, segurança e uma experiência acolhedora para milhões de visitantes.

À medida que o relógio avança rumo ao apito inicial em 11 de junho, cresce a pressão sobre o governo americano para encontrar soluções que evitem que questões políticas e administrativas comprometam um evento de escala global. O desafio não é apenas logístico, mas também simbólico: equilibrar segurança e abertura em um momento em que o mundo estará, literalmente, de olho no país.