Conflito interno marca plano de deportações em massa nos EUA, revela livro

Disputa entre líderes de imigração expôs tensões sobre medidas consideradas agressivas e possíveis violações de direitos civis

Por Lara Barth

Iniciativa faz parte de ofensiva contra imigração ilegal

Um novo livro que detalha os bastidores da política migratória dos Estados Unidos revela um intenso conflito interno no Departamento de Segurança Interna (DHS) sobre a execução de um plano ambicioso de deportações em massa durante o governo Donald Trump. A obra “Undue Process: The Inside Story of Trump’s Mass Deportation Program” descreve divergências profundas entre autoridades sobre como atingir a meta de deportar 1 milhão de pessoas em um ano.

De acordo com o relato, o então diretor interino do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE), Caleb Vitello, entrou em choque com Rodney Scott, comissário da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP). Scott defendia a implementação de um “plano mestre”, apoiado pela então secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, que previa a criação de um centro nacional para coordenar operações conjuntas entre diferentes agências, incluindo o Departamento de Defesa.

O plano incluía ações em larga escala em cidades americanas, com foco em imigrantes que já tinham ordens de deportação. Entre as medidas propostas, estava a autorização para que agentes federais entrassem em residências com base em mandados administrativos — sem aprovação judicial — e acelerassem deportações sem possibilidade de recurso.

Vitello se opôs à estratégia, alertando que muitos dos endereços disponíveis estavam desatualizados e que a ausência de mandados judiciais poderia levar a abordagens indevidas, inclusive contra cidadãos americanos. Segundo autoridades ouvidas, o impasse foi tão intenso que uma reunião sobre o tema precisou ser encerrada abruptamente após troca de acusações.

Dias depois, Vitello foi afastado de sua função e realocado para o setor de treinamento do ICE. Seu posto foi assumido por Todd Lyons. Embora o plano não tenha sido implementado integralmente, partes da estratégia foram colocadas em prática, incluindo a autorização para detenções em residências com base em mandados administrativos.

As operações de fiscalização se intensificaram em cidades como Los Angeles, provocando protestos e críticas de autoridades locais, que apontaram possíveis violações de liberdades civis. A situação ganhou ainda mais repercussão após a morte de dois cidadãos americanos durante ações em Minneapolis, o que impactou negativamente a avaliação pública da política migratória.

Diante da reação, o próprio Trump indicou a necessidade de ajustar a abordagem. “Talvez possamos usar um pouco mais de suavidade, mas ainda é preciso ser firme”, afirmou em entrevista.

Apesar dos esforços, o governo segue distante da meta inicial. Dados recentes indicam que cerca de 570 mil pessoas foram deportadas desde o retorno de Trump à presidência. Em meio às críticas, Kristi Noem deixou o cargo e foi substituída pelo senador Markwayne Mullin, que tem adotado um tom mais moderado, suspendendo medidas como a entrada em residências sem mandado judicial e planos de ampliação de centros de detenção.

Fonte: NBC