Milhares de solicitantes de asilo desistem de processos após ameaça de deportação para países que não são os de origem

Política do governo Trump de enviar imigrantes para "terceiros países" aumenta medo, paralisa casos e leva muitos a abandonar pedidos de asilo nos EUA

Por Lara Barth

EUA deporta brasileiros

O caso de Willian Yacelga Benalcazar seguiu um padrão que tem se repetido nos tribunais de imigração dos Estados Unidos: após afirmar que temia retornar ao Equador, seu país natal, um juiz determinou que ele poderia ser deportado para Honduras.

Yacelga contou que fugiu do Equador após receber ameaças de gangues criminosas. No entanto, depois de passar cinco meses detido sob custódia do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA (ICE), decidiu desistir do pedido de asilo e aceitar a deportação para o Equador.

“Desistimos do caso porque o advogado disse que eu poderia ficar preso por mais três ou quatro meses. Eu já estava doente lá dentro. Não aguentava mais”, afirmou Yacelga à CBS News, em entrevista por telefone realizada do Equador.

Segundo ele, as condições de detenção eram precárias, incluindo dificuldades para conseguir comida e consumo de água contaminada com cloro.

O Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) informou que Yacelga entrou ilegalmente no país e foi deportado para o Equador em 16 de abril.

A política do governo Trump de deportar solicitantes de asilo para países terceiros — nações diferentes de seus locais de origem — tem provocado um aumento expressivo de desistências em processos de imigração, segundo análise da CBS News baseada em dados federais recentes e entrevistas com advogados e especialistas.

De acordo com a organização Third Country Deportation Watch, cerca de 17,5 mil pessoas já foram deportadas para terceiros países desde o retorno de Trump à presidência. A maioria foi enviada ao México.

Ainda assim, um número muito maior enfrenta apenas a ameaça desse tipo de deportação. Mais de 75,5 mil pedidos de asilo receberam moções para encerramento antecipado dos processos, sem análise completa do mérito do caso.

A prática ganhou força após uma decisão de outubro de 2025 do Board of Immigration Appeals (BIA), órgão responsável por recursos no sistema imigratório americano. O tribunal determinou que juízes de imigração devem primeiro avaliar pedidos de remoção para terceiros países antes de analisar se o imigrante tem direito ao asilo nos EUA.

Esses terceiros países possuem acordos de cooperação com o governo americano, permitindo que solicitantes de asilo sejam redirecionados para locais como Honduras, Guatemala, Equador e Uganda.

Advogados afirmam que, desde então, praticamente todos os solicitantes de asilo precisam provar que também correm risco nesses países alternativos.

Dados dos tribunais de imigração mostram que cerca de 12,3 mil pessoas — aproximadamente 16% dos casos afetados — desistiram do pedido de asilo ou aceitaram deixar voluntariamente os Estados Unidos.

“Os países para onde essas pessoas estão sendo enviadas muitas vezes também são perigosos e não possuem sistemas de asilo funcionais”, afirmou Victoria Neilson, advogada do National Immigration Project.

Além disso, milhares de casos seguem paralisados. Mais de 24 mil pessoas receberam ordens de deportação para terceiros países, mas muitas dessas remoções ainda não foram executadas.

Especialistas questionam a viabilidade prática dessas deportações em massa. Honduras, por exemplo, concordou em receber apenas 10 deportados não hondurenhos por mês, enquanto mais de 6,3 mil pessoas já haviam recebido ordens de remoção para o país até março.

Outro problema apontado é a lentidão no sistema de recursos. Cerca de 13,3 mil casos estão suspensos enquanto os imigrantes recorrem das decisões. Em média, o BIA levou dois anos para julgar recursos no último ano.

Para imigrantes detidos, a espera pode ser ainda mais difícil. Aproximadamente 1,8 mil pessoas estavam presas aguardando decisões até o fim de março.

Yacelga relatou ter sido transferido entre cinco centros de detenção diferentes, muitas vezes algemado durante todo o dia. Segundo ele, sua família e advogado chegaram a passar mais de um mês sem saber onde estava.

“Tudo o que eu queria era sair dali, ser livre, porque é horrível ficar preso lá dentro”, disse.

O DHS afirmou ainda que Yacelga havia sido preso por furto e posse de propriedade roubada. Ele, no entanto, afirmou que nunca foi condenado e que os processos ainda estavam pendentes quando foi detido.

Duas semanas após ser deportado, Yacelga disse continuar sofrendo problemas de saúde e dificuldades financeiras.

“Quero esquecer tudo isso e recomeçar, porque foi horrível ficar preso sem ter cometido crime algum, apenas por tentar cuidar da minha família”, afirmou.

Fonte: CBS