Suicídios em centros de detenção da imigração dos EUA disparam durante governo Trump, aponta investigação da AP
Número de mortes sob custódia do ICE preocupa especialistas, que denunciam falhas graves em atendimento psicológico e supervisão de imigrantes detidos
Uma investigação da Associated Press revelou um aumento alarmante nos casos de suicídio entre imigrantes detidos pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos (ICE) durante o segundo mandato do presidente Donald Trump. Desde janeiro de 2025, ao menos 10 detentos morreram por suicídio sob custódia da agência — número considerado sem precedentes por especialistas em saúde pública e direitos humanos.
Entre os casos está o de Brayan Rayo Garzon, colombiano de 26 anos que tirou a própria vida em abril dentro de uma prisão no Missouri. Infectado com Covid-19 e mantido em isolamento, ele havia solicitado atendimento psicológico e implorado para falar com a mãe antes de morrer. Segundo documentos obtidos pela AP, seus pedidos foram ignorados.
Especialistas afirmam que o crescimento das mortes evidencia falhas estruturais no sistema de detenção migratória dos EUA. Dados analisados pela agência mostram que os suicídios representam quase 20% das 51 mortes registradas sob custódia do ICE desde o início de 2025. Historicamente, a agência registrava no máximo um caso por ano.
A maioria das vítimas era formada por homens hispânicos, com idade média de 32 anos. Muitos não tinham antecedentes criminais violentos. Relatos apontam que os detentos enfrentavam altos níveis de estresse, medo de deportação, isolamento, barreiras linguísticas e dificuldade de acesso a apoio jurídico e psicológico.
A investigação identificou falhas recorrentes em centros de detenção administrados por empresas privadas, prisões locais e instalações federais. Entre os problemas relatados estão atrasos em avaliações médicas, cancelamento de consultas psiquiátricas, negligência diante de sinais de sofrimento emocional e falta de monitoramento de presos considerados vulneráveis.
Em diversos casos, os detentos foram colocados em isolamento, prática que especialistas consideram capaz de agravar sentimentos de desespero e abandono. Em algumas unidades, inspetores encontraram ainda objetos potencialmente perigosos acessíveis aos presos e ausência de protocolos adequados de prevenção ao suicídio.
O Departamento de Segurança Interna dos EUA afirmou, por meio da porta-voz Lauren Bies, que os suicídios continuam sendo “extremamente raros” e que o ICE oferece atendimento médico e treinamento anual de prevenção para funcionários.
Mesmo assim, especialistas dizem que o cenário atual reflete falhas graves no sistema. “Algo está profundamente errado do ponto de vista da saúde pública e mental”, afirmou o epidemiologista Sanjay Basu, da Universidade da Califórnia em São Francisco.
A população detida pelo ICE aumentou cerca de 50% durante o novo mandato de Trump, chegando a aproximadamente 60 mil pessoas. O crescimento acelerado da estrutura de detenção, segundo críticos, teria agravado problemas de supervisão e atendimento dentro das unidades.
Fonte: CBS