Crianças "tratadas como criminosas" em centro de detenção do ICE geram indignação nos EUA

Relatos denunciam más condições, falta de água adequada e detenção prolongada de famílias migrantes em centro no Texas

Por Lara Barth

Governo de Donald Trump intensificou as ações de deportação de imigrantes ilegais

Relatos de famílias imigrantes detidas no centro de detenção de Dilley, no Texas, reacenderam críticas à política migratória do governo Trump nos Estados Unidos. Advogados, parlamentares e organizações de direitos humanos denunciam que crianças estão sendo mantidas em condições degradantes dentro da unidade administrada pelo ICE, o serviço de imigração americano.

Entre os casos está o da família de Joel Andre, um adolescente de 17 anos vindo da República Democrática do Congo. Joel, sua irmã mais nova Estafania, a mãe Carine e a irmã Olivia foram detidos no centro em novembro do ano passado após tentarem pedir asilo político nos EUA.

A família afirma ter fugido do Congo depois que Carine, ativista política, sofreu perseguições e violência por criticar o governo local.

Joel descreveu as condições em Dilley como “muito difíceis”, especialmente para crianças.

“A comida, a água que bebíamos e até a água do banho eram horríveis”, contou.

A mãe e os dois filhos menores foram libertados em março, mas Olivia, de 19 anos, permaneceu presa por mais de cinco meses, provocando desespero na família.

Segundo a advogada Elora Mukherjee, da Universidade Columbia, a família havia seguido corretamente todos os procedimentos migratórios desde a chegada aos EUA em 2022 e comparecido a todas as audiências exigidas.

Mesmo assim, em fevereiro de 2025, um juiz determinou a deportação da família. Após tentarem entrar no Canadá e serem devolvidos aos EUA, eles acabaram enviados para o centro de Dilley.

Mukherjee afirma que o local funciona como uma série de trailers adaptados para detenção familiar e denuncia problemas graves relatados por diversos detentos.

“As pessoas relatam falta de água potável, presença de vermes e mofo na comida e luzes acesas 24 horas por dia, dificultando o sono”, disse.

Os relatos aparecem em depoimentos, cartas e entrevistas feitas com dezenas de imigrantes detidos na unidade.

Dados federais indicam que mais de 6.300 menores de 18 anos foram detidos por autoridades migratórias durante o segundo mandato de Trump. Quase metade passou por Dilley, e 97% deles não possuíam antecedentes criminais.

O deputado democrata Joaquin Castro, do Texas, classificou o centro como uma “prisão para crianças”.

“É o único lugar nos Estados Unidos onde prendemos crianças pequenas que não cometeram crime algum”, afirmou.

Castro pede o fechamento imediato da unidade e acusa o governo de usar as condições do local como forma de intimidar imigrantes.

“A mensagem é clara: vocês não são bem-vindos aqui”, disse.

O centro de Dilley foi aberto em 2014 durante o governo Obama para receber famílias migrantes detidas na fronteira sul. A unidade foi fechada durante a gestão Biden e reaberta por Trump em 2025, sob administração da empresa privada CoreCivic, em um contrato avaliado em US$ 180 milhões anuais.

A CoreCivic nega todas as acusações e afirma que o local atende padrões federais de saúde, alimentação e segurança. O Departamento de Segurança Interna (DHS) também rejeitou as denúncias e classificou os relatos como “falsos”.

Em nota, o governo afirmou que os detidos recebem alimentação adequada, atendimento médico, água potável e acesso à educação infantil.

Apesar disso, parlamentares afirmam que o acesso ao centro é extremamente restrito. Jornalistas não podem entrar na unidade e até membros do Congresso precisam entregar celulares na entrada, impedindo o registro de imagens internas.

Segundo Castro, durante visita recente ao local, crianças pequenas o abraçavam pedindo ajuda para sair dali.

“Há uma brutalidade por trás dessas paredes que o público ainda não consegue ver”, afirmou.

O caso da família congolesa terminou com a libertação de Olivia e um reencontro emocionante em um aeroporto no Maine. Mas, segundo defensores dos direitos humanos, histórias como essa estão longe de representar a realidade da maioria dos imigrantes detidos no sistema americano.

Fonte: CBS