Apenas 3% dos detidos pelo ICE tinham condenação por crime violento, aponta análise de dados do governo
Levantamento mostra que maioria dos imigrantes detidos durante a atual gestão Trump não possuía histórico de crimes violentos; milhares de pais e cônjuges de cidadãos americanos foram afetados
Uma análise de dados do governo dos Estados Unidos revelou que apenas 3% das pessoas detidas pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) durante os primeiros 14 meses do segundo mandato do presidente Donald Trump possuíam condenações por crimes violentos.
Os números, divulgados pela ABC News com base em informações obtidas por meio da Lei de Liberdade de Informação (FOIA), contrastam com a promessa feita por Trump de concentrar os esforços de deportação nos chamados “piores criminosos” entre os imigrantes que vivem no país sem autorização legal.
De acordo com os dados, entre 20 de janeiro de 2025 e 11 de março de 2026, o ICE deteve 438.537 pessoas. Desse total, apenas 13.018 tinham condenações por crimes violentos nos Estados Unidos, categoria que inclui homicídio, agressão sexual, roubo e agressão física.
A análise também aponta que mais de 400 mil pessoas sem histórico de crimes violentos foram impactadas pelas ações de fiscalização migratória, incluindo pais e cônjuges de cidadãos americanos.
Embora a proporção de detidos com condenações violentas seja semelhante à observada durante a administração Biden, os dados indicam que o aumento significativo das detenções sob Trump não resultou em uma parcela maior de criminosos violentos entre os detidos.
Recorde de detenções
O governo Trump alcançou níveis recordes de detenção migratória. Atualmente, cerca de 60 mil pessoas estão sob custódia federal de imigração. Durante o governo anterior, o pico foi de 39.748 detidos, registrado em novembro de 2023.
Os dados mostram ainda que, nos primeiros oito meses de 2025, aproximadamente 14.450 pais de crianças nascidas nos Estados Unidos foram presos por agentes de imigração. O número quase iguala o total registrado durante todo o ano de 2024 e supera os números anuais de 2022 e 2023.
Mais de 9.700 crianças tiveram pelo menos um dos pais colocado em centros de detenção migratória durante os primeiros sete meses da atual gestão. Entre os pais detidos, mais de 7 mil acabaram deportados.
Dos mais de 4.700 pais deportados, apenas 265 tinham condenações por crimes violentos. Entre os mais de 6.400 pais detidos, esse número foi de 322.
Governo rebate críticas
Em resposta à reportagem, o Departamento de Segurança Interna (DHS) afirmou que a análise apresenta uma visão distorcida dos dados.
Segundo um porta-voz da agência, desde o primeiro dia da administração Trump, as forças de segurança têm cumprido a promessa de prender e deportar imigrantes em situação irregular envolvidos em crimes graves, incluindo homicidas, estupradores, integrantes de gangues e suspeitos de terrorismo.
O DHS argumenta que muitos indivíduos classificados como “não criminosos” não possuem antecedentes criminais nos Estados Unidos, mas podem estar ligados a atividades criminosas ou representar riscos à segurança.
A agência também destacou que qualquer pessoa que tenha entrado ilegalmente no país está sujeita a processos de remoção, embora a entrada irregular seja, em muitos casos, tratada como infração civil e não criminal.
Impactos familiares e econômicos
Especialistas alertam para os efeitos das deportações em massa sobre famílias americanas. Andrea Flores, ex-integrante do Departamento de Segurança Interna e fundadora da organização Securing America's Promise, afirmou que a política atual pode provocar uma crise no bem-estar infantil.
Segundo ela, milhares de crianças estão perdendo seus principais responsáveis ou sendo entregues a outros tutores devido às detenções e deportações.
O DHS, por sua vez, afirmou que o ICE não separa famílias e que os pais recebem a opção de deixar o país acompanhados dos filhos ou indicar uma pessoa de confiança para cuidar das crianças.
Os dados também mostram que 4.843 cônjuges de cidadãos americanos foram detidos nos primeiros oito meses de 2025. Mais de 2 mil deles foram deportados durante os sete primeiros meses do mandato, sendo que apenas 165 possuíam condenações por crimes violentos.
Especialistas afirmam que, além do impacto emocional, as deportações podem gerar consequências financeiras significativas para famílias que dependem da renda do cônjuge removido do país.
Metodologia
A análise da ABC News combinou informações fornecidas pelo ICE ao Deportation Data Project e ao Centro de Direitos Humanos da Universidade de Washington. Os dados incluem registros de detenções, deportações e documentos produzidos por agentes de imigração entre 2022 e 2026.
Os pesquisadores cruzaram diferentes bases de dados para acompanhar o percurso dos casos desde a prisão até a detenção ou deportação, identificando pais e cônjuges de cidadãos americanos afetados pelas medidas migratórias.
Especialistas acreditam que os números podem ser ainda maiores, já que nem todos os casos foram incluídos na análise. Estimativas apontam que cerca de 4 milhões de crianças cidadãs dos Estados Unidos possuem pelo menos um dos pais sem documentação migratória regular.
Fonte: ABC