Segundo morador de Nova York diz ter sido advertido por agentes federais após criticar o ICE

Homem afirma que recebeu visita de autoridades por e-mail enviado ao diretor da agência de imigração; caso reacende debate sobre liberdade de expressão nos EUA

Por Lara Barth

A agência não possui acordo formal com a empresa

Um segundo morador do estado de Nova York afirma ter sido alvo de uma advertência de agentes federais dos Estados Unidos após publicar críticas ao Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês).

Segundo o advogado Adam Steinbaugh, da organização Foundation for Individual Rights and Expression (FIRE), seu cliente, David Streever, de Rochester, estava em viagem à Finlândia quando dois agentes foram até sua residência, na semana passada, e entregaram à esposa um aviso oficial informando que um e-mail enviado por ele meses antes havia sido considerado uma ameaça.

A mensagem foi encaminhada em janeiro ao então diretor interino do ICE, Todd Lyons, após a morte de Renee Good, moradora de Minneapolis que foi baleada por um agente de imigração durante uma manifestação contra o ICE.

No e-mail, Streever criticava duramente Lyons e afirmava que sua postura diante do caso acabaria provocando sua "queda". Em outro trecho, escreveu que o diretor "nunca conheceria a paz".

Defesa afirma que mensagem é protegida pela liberdade de expressão

O advogado de Streever sustenta que o conteúdo do e-mail não configura ameaça, mas sim uma manifestação política protegida pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que garante a liberdade de expressão.

"Uma ameaça verdadeira é uma manifestação séria de intenção de cometer violência. Este e-mail está muito longe disso. Trata-se de discurso político e do direito de peticionar ao governo", afirmou Steinbaugh.

Em nota, Streever disse que ficou profundamente abalado com a morte de Renee Good e decidiu escrever ao chefe do ICE para expressar sua indignação.

"Como muitos americanos, fiquei profundamente chocado com o ocorrido em Minnesota. Escrever uma carta ao diretor do ICE pareceu a forma mais simples de manifestar minha revolta. Nunca imaginei que isso resultaria em uma visita de agentes federais à minha casa", declarou.

Segundo a defesa, agentes federais também tentaram localizar Streever em um hotel de Nova York quando ele retornou da Finlândia, mas não conseguiram contato após funcionários do estabelecimento recusarem o acesso.

Caso semelhante ocorreu durante eleições primárias

O episódio aconteceu poucos dias depois de outra moradora de Nova York, Paigelynne Gonyea, de Syracuse, afirmar que agentes federais a abordaram em seu local de trabalho durante as eleições primárias do estado.

Ela acredita que a visita ocorreu por causa de publicações nas redes sociais relacionadas ao mesmo agente do ICE envolvido na morte de Renee Good.

O*Departamento de Segurança Interna (DHS) informou anteriormente que Gonyea também teria divulgado o endereço residencial do agente, prática conhecida como doxxing, o que, segundo o órgão, pode configurar crime federal.

A porta-voz do DHS, Lauren Bis, afirmou que ameaças e a divulgação de informações pessoais de agentes serão investigadas.

Já o ICE informou, em comunicado, que apura todas as ameaças consideradas críveis contra seus funcionários e dirigentes, mas não comentou especificamente o caso de Streever por se tratar de uma investigação em andamento.

Casos geram debate sobre direitos constitucionais

Os dois episódios chamaram a atenção de organizações que defendem a liberdade de expressão nos Estados Unidos.

O vice-diretor do projeto de liberdade de expressão, privacidade e tecnologia da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), Nathan Freed Wessler, afirmou que cidadãos não deveriam ser alvo de visitas de agentes federais apenas por manifestarem críticas ao governo.

Segundo ele, esse tipo de ação pode gerar um efeito de intimidação sobre pessoas que desejam exercer direitos garantidos pela Constituição.

A Procuradoria-Geral do Estado de Nova York informou que acompanha os dois casos e analisa as circunstâncias das abordagens realizadas por agentes federais.

Fonte: ABC