Mais de 15 centros de detenção de imigrantes nos EUA ficaram mais de um ano sem inspeção, aponta análise
Mudanças nas regras do ICE reduziram a frequência das fiscalizações, enquanto especialistas alertam para riscos à saúde, segurança e aos direitos dos detidos.
Pelo menos 15 dos 45 maiores centros de detenção de imigrantes dos Estados Unidos, cada um com capacidade para abrigar mais de 500 pessoas, passaram mais de um ano sem receber inspeções oficiais até o fim de junho, segundo uma análise da CBS News baseada em relatórios do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE). Outros cinco centros sequer tinham registro de inspeção.
Os dados refletem uma mudança na política do ICE, que reduziu a frequência das inspeções. Antes realizadas, em sua maioria, duas vezes por ano, as fiscalizações agora ocorrem anualmente ou, em alguns casos, a cada dois anos.
Especialistas em imigração afirmam que a redução compromete um mecanismo de fiscalização considerado essencial para garantir condições adequadas de detenção.
"A maioria das unidades apresenta algum tipo de deficiência, e inspeções frequentes são importantes para verificar se esses problemas estão sendo corrigidos", afirmou à CBS News a médica Annette Decker, professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), que pesquisa as condições de saúde em centros de detenção de imigrantes.
A preocupação cresce em meio ao aumento da população detida durante a política de deportações do governo Trump. Em 2025, as mortes sob custódia do ICE atingiram o maior índice desde 2020. Nos últimos meses, denúncias de alimentação inadequada, atendimento médico precário e más condições sanitárias provocaram protestos e greves de fome em algumas unidades.
Desde 2019, cerca de 90% das inspeções realizadas pelo ICE identificaram pelo menos uma irregularidade, segundo a análise da CBS News. Entre os problemas encontrados estão falhas na prevenção ao suicídio, armazenamento inadequado de alimentos e deficiências na documentação de incidentes.
Em nota, o Departamento de Segurança Interna (DHS) defendeu as mudanças, afirmando que a frequência das inspeções varia de acordo com o tipo de instalação, sua capacidade e função operacional. Segundo a pasta, o ICE mantém um programa de fiscalização "robusto e com múltiplas camadas" para garantir o cumprimento dos padrões exigidos.
Menos fiscalização e mais centros de detenção
As mudanças ocorreram após o ICE alterar, em 2024, o modelo de inspeções. Centros exclusivos para imigrantes passaram a ser vistoriados uma vez por ano, enquanto instalações compartilhadas, como cadeias municipais, passaram a receber inspeções apenas a cada dois anos.
Paralelamente, o governo ampliou significativamente a rede de centros de detenção. Em abril deste ano, 203 instalações abrigavam imigrantes sob custódia do ICE, praticamente o dobro das 104 unidades registradas em fevereiro de 2024.
Segundo reportagem da Reuters, o czar da fronteira Tom Homan afirmou, em fevereiro de 2025, que a redução das inspeções federais também tinha o objetivo de incentivar autoridades locais a disponibilizarem suas prisões para receber detentos do ICE.
Irregularidades persistem
Mesmo quando as inspeções eram semestrais, órgãos independentes já apontavam falhas na fiscalização.
Um exemplo citado pela CBS News é o Stewart Detention Center, na Geórgia, onde vivem cerca de 2 mil detidos. Apesar de ter recebido classificação considerada satisfatória em março de 2025, os inspetores identificaram 12 irregularidades, incluindo falhas relacionadas à prevenção do suicídio. Desde então, dois detentos morreram por suicídio na unidade.
Outras inspeções recentes também identificaram dezenas de violações relacionadas ao uso excessivo da força, problemas de saúde e segurança e falhas em programas educacionais voltados para crianças em centros de detenção familiar.
Especialistas afirmam que a simples expectativa de uma inspeção costuma levar as unidades a corrigirem problemas antes mesmo da visita dos fiscais.
"Quanto mais frequentes forem as inspeções, melhor. Quando elas passam a ocorrer com menos regularidade, muita coisa pode sair do controle entre uma fiscalização e outra", afirmou Margo Schlanger, ex-chefe do Escritório de Direitos Civis e Liberdades Civis do DHS durante o governo Obama.
Fiscalização enfraquecida
Além da redução das inspeções, o Departamento de Segurança Interna também diminuiu outros mecanismos de supervisão, incluindo o esvaziamento do Escritório do Ombudsman de Detenção de Imigração e do Escritório de Direitos Civis e Liberdades Civis, responsáveis por investigar denúncias de abusos e violações de direitos.
Críticos afirmam que essas mudanças reduzem a transparência e dificultam a responsabilização das unidades por irregularidades.
Em alguns casos, parlamentares e autoridades estaduais passaram a realizar inspeções próprias. Em um centro de detenção na Califórnia, por exemplo, inspetores estaduais encontraram falta de profissionais de saúde e atrasos no atendimento médico de emergência — problemas que não haviam sido registrados na inspeção oficial mais recente do ICE.
Especialistas também questionam a independência do próprio órgão responsável pelas inspeções, já que ele faz parte da estrutura do ICE, responsável pela administração dos centros de detenção. Segundo eles, a combinação de menos fiscalizações e menor supervisão externa pode aumentar os riscos para a saúde, a segurança e os direitos dos imigrantes sob custódia do governo americano.
Fonte: CBS