ICE monitora quase 54 mil imigrantes com tornozeleiras eletrônicas nos EUA

Número de pessoas usando dispositivos com GPS mais que triplicou desde o início de 2025; mudança também aumentou a receita de empresa privada responsável pelo programa

Por Lara Barth

Duas mortes foram semana passada.

A Agência de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) atualmente monitora quase 54 mil imigrantes por meio de tornozeleiras eletrônicas com GPS, como parte de um programa de vigilância migratória no país.

Os dados foram divulgados pela Geo Group, empresa privada que administra o programa por meio de sua subsidiária BI Inc. No início de 2025, aproximadamente 17 mil imigrantes utilizavam os dispositivos.

O número total de pessoas inscritas no programa, porém, permanece relativamente estável, em cerca de 184 mil. Segundo executivos da Geo Group, muitos imigrantes que anteriormente eram monitorados por métodos considerados menos invasivos, como ligações e check-ins por telefone, passaram a utilizar tornozeleiras.

Tornozeleiras aumentam receita da empresa
A mudança também representa uma oportunidade financeira para a Geo Group.

As tornozeleiras são classificadas pela empresa como uma modalidade de monitoramento de “alto nível de segurança” e custam mais à ICE do que outras tecnologias utilizadas no programa.

Segundo dados públicos da ICE, a Geo Group cobra pouco mais de US$ 2 por dia por tornozeleira. Já o aplicativo SmartLINK, que utiliza reconhecimento facial e rastreamento de localização pelo celular, custa aproximadamente US$ 0,96 por pessoa monitorada.

Mais de 127 mil imigrantes estavam obrigados a realizar check-ins pelo SmartLINK na última atualização disponível.

“Se essa tendência continuar, a mudança na combinação de tecnologia e gerenciamento de casos continuará aumentando a receita e os lucros gerados pelo contrato do ISAP, mesmo que o número total de participantes permaneça relativamente estável”, afirmou George Zoley, presidente e CEO da Geo Group.

ICE teria determinado aumento do uso de tornozeleiras
Segundo um memorando obtido pelo Washington Post, agentes da ICE receberam, em junho de 2025, orientação para transferir mais imigrantes inscritos no programa para o sistema de monitoramento por tornozeleiras.

A política passou a ser alvo de críticas de organizações de defesa dos imigrantes.

Em uma ação coletiva apresentada contra a ICE em junho, grupos de defesa alegam que a política de “tornozeleiras para todos” impõe monitoramento contínuo por GPS sem uma justificativa individual para cada pessoa.

Segundo os grupos, imigrantes estariam sendo submetidos a vigilância constante sem revisão adequada, explicações ou oportunidade efetiva de contestar as condições impostas.

A acusação inclui também mulheres grávidas, que, segundo reportagem anterior do Guardian, passaram a ser monitoradas com relógios inteligentes.

“Essa política atende ao interesse de tornar a vida cotidiana mais difícil para os imigrantes, ao mesmo tempo em que aumenta os lucros dos amigos da indústria penitenciária privada”, afirmou Evan Benz, advogado do Amica Center for Immigrant Rights.

O Departamento de Segurança Interna dos EUA foi procurado para comentar as acusações.

Empresa investiu milhões antes da expansão
Antecipando uma maior utilização das tornozeleiras, a Geo Group começou a ampliar sua capacidade de produção dos dispositivos no início de 2025.

Na época, a empresa anunciou um investimento de US$ 16 milhões para fabricar uma quantidade suficiente de equipamentos que permitisse ao governo federal ampliar o programa ISAP em centenas de milhares e, potencialmente, milhões de participantes.

A previsão de crescimento do uso das tornozeleiras começou a se concretizar. No entanto, investidores demonstraram preocupação com o fato de o número total de imigrantes monitorados pelo ISAP não estar crescendo na mesma proporção.

Anteriormente, executivos da Geo Group esperavam que a política migratória do governo Trump provocasse uma forte expansão do programa, superando o pico de aproximadamente 370 mil participantes registrado durante o governo Biden.

A empresa chegou a projetar que a demanda do governo poderia levar o ISAP a monitorar mais de 400 mil imigrantes.

Programa foi criado como alternativa à detenção
O ISAP (Intensive Supervision Appearance Program) foi criado originalmente como uma alternativa à detenção de imigrantes e é administrado pela BI Inc. desde 2004.

Além das tornozeleiras com GPS, o programa utiliza outras formas de monitoramento, incluindo relógios inteligentes com localização em tempo real e aplicativos para smartphones.

Executivos da Geo Group afirmam que o número de participantes pode aumentar caso o governo federal fique sem capacidade suficiente nos centros de detenção.

O presidente da empresa disse estar otimista de que mudanças recentes nas políticas de imigração possam aumentar o número de pessoas sujeitas à fiscalização migratória e, eventualmente, fazer o ISAP crescer de forma significativa.

Entre as medidas recentes do governo está a revogação do status de proteção temporária para haitianos, decisão que pode colocar centenas de milhares de pessoas nos Estados Unidos sob risco de detenção ou deportação.

Imigrantes relatam problemas com os dispositivos
Pessoas submetidas ao programa também relataram problemas com as tornozeleiras produzidas pela BI.

Segundo esses relatos, alguns dispositivos teriam superaquecido, provocado choques elétricos ou sido colocados apertados demais.

Organizações de defesa dos imigrantes também questionam o nível de fiscalização governamental sobre o funcionamento do programa e as condições impostas às pessoas monitoradas.

Fonte: The Guardian