O preço da deportação em massa: como a política migratória de Trump está encarecendo a vida nos EUA
Relatório do grupo America's Voice aponta que a chamada "ICE Tax" já se reflete no preço do alfface, da casa própria e do cuidado com idosos — Casa Branca rebate e culpa gestão anterior
Alface mais cara, casas mais caras para construir, cuidado com idosos mais caro para contratar. Um novo relatório da organização America's Voice sugere que a agressiva política de deportações em massa do governo Trump está tendo um efeito colateral direto no bolso do consumidor americano — um custo que o grupo batizou de "ICE Tax", em referência à sigla da agência de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).
A Casa Branca nega a relação e atribui o aumento de preços à administração anterior.
Os números por trás do "imposto"
Segundo a America's Voice, uma análise de doze meses de dados federais de preços, encerrados em junho de 2026, mostra que, enquanto os preços núcleo da economia (excluindo alimentos e energia) subiram 2,6%, os bens e serviços que mais dependem de mão de obra imigrante dispararam bem acima disso: a alface subiu 32,1%, as frutas cítricas frescas 6,3%, as maçãs 7,1%, o leite integral 9%, os serviços de paisagismo 10,8% e o home health care — cuidado domiciliar de saúde, área em que 40% da força de trabalho é imigrante — teve alta de 10,7%.
O setor da construção civil também aparece como um dos mais afetados. No Nordeste dos Estados Unidos, os novos alvarás para construção de casas unifamiliares caíram 23,5% entre março de 2025 e junho de 2026 — justamente em uma região onde 23% da força de trabalho da construção é formada por imigrantes. No mesmo período, o preço de casas novas na região subiu 15,4%.
O relatório também associa a política de deportações à perda de empregos em escala mais ampla: uma análise de dados de folha de pagamento em centenas de cidades americanas estimou que a onda de fiscalização de imigração em 2025 custou cerca de 668 mil empregos, dos quais entre 51 mil e 297 mil pertenciam a trabalhadores nascidos nos Estados Unidos.
O efeito nas ruas
Além dos preços, o levantamento aponta um impacto direto no comércio local. Um estudo da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, cruzou milhares de operações do ICE com dados de fluxo de pessoas e consumo em tempo real, coletados de milhões de estabelecimentos comerciais. A conclusão: depois que uma operação de fiscalização migratória chega a uma região metropolitana, o consumo local fica, em média, 6,2% abaixo do normal, e o fluxo de clientes nos estabelecimentos cai 2,7% — um efeito que atinge com mais força os pequenos negócios independentes e que, segundo o estudo, não dá sinais de enfraquecer com o tempo.
"Deportar à força centenas de milhares de trabalhadores essenciais significa dólares extras no caixa do supermercado, a casa que custa seis dígitos a mais para ser construída, a loja de esquina que fica em silêncio depois de uma batida, o emprego que desaparece quando um colega de trabalho nunca mais volta", afirmou Vanessa Cardenas, diretora executiva da America's Voice, em comunicado.
A própria organização reconhece que outros fatores — como condições climáticas e o aumento no custo dos combustíveis — também contribuem para a alta de preços observada. Ainda assim, defende que o padrão se repete de forma consistente: "Nenhum número prova o caso sozinho.
Mas categoria após categoria, os produtos e serviços que mais dependem de mão de obra imigrante são os que mais se distanciam do resto da economia. Isso é um custo com uma causa, não uma coincidência", diz o relatório.
A resposta da Casa Branca
O governo Trump rejeita a análise. Em nota enviada à CNBC, a porta-voz da Casa Branca, Lauren Bis, atribuiu o encarecimento do custo de vida à gestão anterior, de Joe Biden. Segundo ela, a liberação de "milhões de imigrantes ilegais" no país durante o governo Biden fez o aluguel subir, os prêmios de seguro de carro dispararem e os salários dos trabalhadores americanos caírem.
Para a porta-voz, Trump estaria justamente revertendo essa crise de acessibilidade ao "colocar os cidadãos americanos em primeiro lugar".
O contexto da disputa é a meta ambiciosa estabelecida pelo governo de deportar um milhão de pessoas por ano. Somente em julho, o ICE deteve mais de 46 mil pessoas por supostas violações de imigração — o maior número mensal já registrado, segundo a CBS News. Relatos indicam que a agência estaria sob pressão da Casa Branca para realizar 2 mil prisões por dia.
A política migratória do governo já vinha sendo criticada por suas táticas agressivas e por denúncias de violações de direitos humanos, além de uma série de mortes de alto perfil envolvendo o ICE. O novo relatório da America's Voice adiciona um argumento econômico a esse debate — um argumento que a Casa Branca, por ora, rejeita publicamente.