Mais de mil pessoas protestam em Danbury contra prisões realizadas pelo ICE

Manifestantes denunciaram operações de imigração na cidade, incluindo detenções em estabelecimentos comerciais, ruas e supostos casos próximos a pontos de ônibus escolares.

Por Lara Barth

Duas mortes foram semana passada.

Mais de mil pessoas foram às ruas de Danbury, em Connecticut, na noite de quarta-feira (2), para protestar contra as recentes operações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) na cidade.

Nos últimos dez dias, agentes do ICE realizaram mais de 100 prisões em diferentes pontos de Connecticut, sendo mais da metade delas em Danbury. A maior parte das detenções ocorreu entre os dias 24 e 28 de agosto.

Segundo autoridades e ativistas, agentes fizeram prisões em estabelecimentos comerciais e nas ruas. Também foram relatadas detenções próximas a pontos de ônibus escolares, algumas delas enquanto crianças estariam dentro dos veículos.

Um dos imigrantes detidos foi Luis, que estava fazendo compras em um supermercado CTown acompanhado do filho pequeno quando foi abordado por agentes de imigração.

Segundo o relato traduzido por uma pessoa que participou do protesto, Luis afirmou que os agentes não deram explicações sobre a abordagem. Ele também disse não ter antecedentes criminais.

Após a prisão, Luis foi levado para Hartford, em Connecticut, depois para Massachusetts e, posteriormente, para o Colorado. Ele permaneceu detido por cerca de uma semana e foi libertado depois que seu advogado ameaçou processar o governo federal.

“Não sei quando o ICE vai chegar”

O prefeito de Danbury, Roberto Alves, que viveu sem status migratório regular até os 20 anos, afirmou que o medo enfrentado pela comunidade atualmente é diferente daquele que conheceu durante a infância.

“Temíamos a deportação, mas não temíamos a brutalidade”, afirmou Alves. Segundo ele, hoje os moradores também convivem com o medo de que familiares sejam abordados ou detidos de maneira inesperada.

O prefeito afirmou que a comunidade está assustada não apenas pelas prisões, mas também pela falta de informações sobre as operações.

“Não sei quando o ICE vai chegar. Não sei quando o ICE vai embora. Não sei quem o ICE prendeu. Não sei o que o ICE está fazendo porque eles não nos dizem”, declarou.

O protesto encerrou uma mobilização chamada “A Day Without an Immigrant” (“Um Dia Sem Imigrantes”), que levou mais de 60 empresas da cidade a fechar as portas em apoio à comunidade imigrante.

Prisões perto de escolas geram preocupação

Os relatos de prisões em pontos de ônibus escolares provocaram forte reação de organizações de defesa dos imigrantes.

O czar da fronteira da Casa Branca, Tom Homan, afirmou à CNN que não tinha conhecimento dessas detenções. Questionado sobre o assunto, porém, não condenou a possibilidade de que elas tenham ocorrido.

Homan disse que agentes do ICE atuam para cumprir ordens de deportação emitidas por juízes federais e que podem realizar operações onde considerarem necessário.

O senador americano Chris Murphy classificou os supostos casos envolvendo pontos de ônibus escolares como uma “tática insidiosa”.

“Quando você tira pais de pontos de ônibus escolares, quando traumatiza crianças intencionalmente e quando mira imigrantes que estão legalmente no país, você não está aqui para apoiar Danbury”, afirmou Murphy.

Segundo as autoridades, o ICE pode realizar prisões nesses locais. Entretanto, agentes não podem entrar em residências ou escritórios privados para efetuar prisões sem um mandado judicial.

Pressão sobre autoridades locais

As operações também aumentaram a pressão sobre autoridades estaduais e municipais, que vêm sendo cobradas por ativistas sobre quais medidas podem adotar para limitar a cooperação local com o ICE.

A Trust Act, lei de Connecticut, estabelece limites para a colaboração entre as forças policiais locais e as autoridades federais de imigração. Outra legislação estadual proíbe agentes do ICE de usarem máscaras, mas autoridades locais, incluindo o prefeito Alves, afirmam que a medida tem pouca força prática.

Na semana passada, o governador de Connecticut, Ned Lamont, deixou o púlpito no meio de uma fala após ser interrompido repetidamente por ativistas que exigiam mais ações contra as operações do ICE em Danbury.

No protesto de quarta-feira, não houve interrupções semelhantes.

Juan Fonseca Tapia, cofundador do grupo Danbury Unites for Immigrants, defendeu a criação de um fundo para ajudar financeiramente as famílias das pessoas detidas. Ele também pediu o fim de contratos entre cidades de Connecticut e a empresa Flock e cobrou medidas do procurador-geral estadual, William Tong, contra os responsáveis pelas operações.

Lamont, Alves e Murphy também defenderam que as eleições legislativas de novembro sejam usadas para ampliar a presença democrata no Congresso como forma de pressionar contra as políticas do ICE.

Para esta quinta-feira (3), o senador Richard Blumenthal programou uma audiência pública com autoridades e ativistas de Danbury para ouvir relatos sobre as operações de imigração realizadas na cidade.

Fonte: CT Mirror