Denunciante do ICE alerta para "queda sem precedentes nos padrões" durante onda de contratações
Supervisor responsável por verificações de antecedentes afirmou que agência contratou novos agentes sem concluir procedimentos básicos de avaliação, em possível violação de regras federais
Um supervisor responsável pelas verificações de antecedentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE) alertou, no ano passado, que a agência estava contratando novos agentes sem concluir procedimentos básicos de avaliação. Segundo uma denúncia interna recém-divulgada, a prática violaria regras federais e aumentaria o risco de casos de má conduta dentro da agência.
O funcionário era chefe de uma unidade do Escritório de Responsabilidade Profissional do ICE, setor responsável, entre outras funções, pelas verificações de antecedentes. Na época, o departamento enfrentava um acúmulo de processos enquanto a agência contratava milhares de novos agentes para executar a política de deportações em massa do presidente Donald Trump.
Segundo a denúncia, a divisão de recursos humanos do ICE estava fazendo ofertas finais de emprego antes da conclusão de etapas preliminares de avaliação, incluindo coleta de impressões digitais, verificação de identidade e análise de crédito.
"Essa redução sem precedentes dos padrões sacrifica a adequada mitigação de riscos em nome da rapidez, colocando o DHS em risco de infiltração e comprometimento interno", escreveu o funcionário em um memorando enviado ao Escritório do Inspetor-Geral do Departamento de Segurança Interna (DHS) em agosto de 2025.
O New York Times foi o primeiro veículo a noticiar a denúncia na quinta-feira. A Associated Press obteve uma cópia do documento e de um memorando relacionado por meio do advogado do ex-funcionário, Kevin Owen.
A identidade do denunciante foi ocultada no documento. Segundo o New York Times, ele trabalhou por 17 anos na agência, é republicano e votou em Trump nas eleições de 2020 e 2024.
ICE contratou 12 mil agentes em menos de um ano
Em janeiro, o ICE anunciou que havia contratado 12 mil novos agentes em menos de um ano. A expansão foi financiada por uma injeção de US$ 75 bilhões aprovada pelo Congresso para ampliar as operações de prisão e deportação da agência.
O ritmo acelerado das contratações, impulsionado por um bônus de US$ 50 mil para novos funcionários, levantou questionamentos sobre a qualidade dos candidatos selecionados.
Uma investigação da Associated Press identificou casos de novos contratados com problemas financeiros graves, acusações de má conduta em empregos anteriores e históricos profissionais considerados problemáticos.
Em julho, Tom Homan, responsável pela política de fronteira da Casa Branca, afirmou que o ICE investigaria possíveis falhas na avaliação de um agente que atirou e matou um motorista de 25 anos no estado do Maine.
Denúncia aponta falhas "sistêmicas"
A denúncia afirma que "falhas sistêmicas nas verificações de antecedentes" violaram diversas normas e regras federais criadas para garantir que candidatos sejam considerados aptos para ocupar funções sensíveis relacionadas à aplicação da lei e à segurança nacional.
Segundo o documento, a falta de avaliações adequadas aumentou a "vulnerabilidade a ameaças internas, infiltração e influência estrangeira", prejudicou as operações de fiscalização do ICE e reduziu a confiança do público na agência.
O denunciante pediu que o inspetor-geral investigasse as possíveis falhas no processo de contratação e que as práticas consideradas inadequadas fossem suspensas imediatamente.
Também solicitou que os responsáveis pelas supostas violações fossem responsabilizados e que todas as contratações recentes fossem revisadas para identificar possíveis "ameaças internas".
O Escritório do Inspetor-Geral já havia anunciado anteriormente investigações sobre o processo de contratação e treinamento do ICE, além das autorizações de segurança concedidas a contratados e pessoas nomeadas politicamente.
ICE nega falhas no processo
Em comunicado divulgado na quinta-feira, o ICE confirmou que o denunciante não trabalha mais na agência.
"A unidade de Responsabilidade Profissional do ICE aplica rigorosamente as regulamentações adequadas de avaliação de pessoal, incluindo as diretrizes de segurança nacional, e analisa todas as informações disponíveis sobre cada candidato com base nesses critérios", afirmou a agência.
Como a Associated Press já havia informado, o ICE reconheceu que alguns candidatos receberam "cartas de seleção provisória" após as etapas iniciais de inscrição e entrevista. Alguns deles chegaram a começar o treinamento antes da conclusão das investigações de antecedentes.
O denunciante é o segundo funcionário interno a questionar publicamente a rapidez com que o ICE vem ampliando seu efetivo e colocando novos agentes em campo.
Ryan Schwank, ex-advogado e instrutor da academia do ICE, afirmou que a agência reduziu, no ano passado, o treinamento sobre uso da força, segurança no manuseio de armas de fogo e direitos de manifestantes.
Desde então, o Departamento de Segurança Interna ampliou a carga de treinamento oferecida aos novos agentes.
Fonte: ABC