ICE demite agentes contratados durante expansão após identificar problemas em históricos
Investigação do Washington Post aponta falhas nas verificações de antecedentes durante a contratação de milhares de novos agentes
O Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos (ICE) começou a demitir alguns dos milhares de agentes contratados durante uma rápida expansão da agência, após identificar problemas em seus históricos profissionais ou questões relacionadas ao desempenho, segundo uma investigação do Washington Post.
A expansão ocorreu durante o governo Donald Trump e tinha como objetivo aumentar as prisões e deportações de imigrantes. Com bilhões de dólares aprovados pelo Congresso, o ICE planejava ampliar seu quadro de aproximadamente 10 mil para 22 mil agentes. Para atrair candidatos, a agência ofereceu bônus de contratação de até US$ 50 mil e recebeu mais de 220 mil inscrições.
Em janeiro, o ICE informou ter contratado 12 mil novos agentes em menos de um ano.
Denúncia apontou falhas nas verificações
A velocidade das contratações, porém, gerou preocupações internas sobre a qualidade das verificações de antecedentes.
Em agosto de 2025, um supervisor do Escritório de Responsabilidade Profissional do ICE, responsável por acompanhar investigações de antecedentes, alertou que funcionários de recursos humanos estavam fazendo ofertas definitivas de emprego antes da conclusão das verificações preliminares.
Segundo o denunciante, alguns candidatos chegaram a iniciar o treinamento antes da conclusão de verificações de impressões digitais, identidade e histórico de crédito.
Em um memorando enviado ao Escritório do Inspetor-Geral do Departamento de Segurança Interna (DHS), o supervisor classificou a situação como uma “redução sem precedentes dos padrões” e alertou para possíveis riscos de infiltração, ameaças internas e influência estrangeira.
Ele pediu a suspensão dos procedimentos, uma revisão das contratações recentes e a identificação de possíveis riscos à segurança.
Caso de agente demitido terminou em morte
Um dos casos analisados envolve Joseph Moore, de 38 anos, ex-reservista dos Marines e pai de dois filhos.
Moore havia trabalhado em departamentos de polícia da Pensilvânia e como investigador criminal do Internal Revenue Service (IRS), mas foi demitido dos dois empregos. Ele entrou no ICE como agente de deportação em 2025.
Em maio de 2026, sete meses após sua contratação, a agência começou a questionar sua permanência por causa de seu histórico profissional. Moore contestou a decisão e continuou trabalhando por mais três meses.
Em 21 de agosto, ele se envolveu em um acidente com um veículo oficial e sofreu uma concussão e várias fraturas. Dias depois, foi informado de que seria demitido.
Em 28 de agosto, Moore foi ao escritório do ICE na Filadélfia levando sua arma de serviço. Segundo a polícia local, agentes tentaram intervir antes que ele atirasse contra si mesmo. Ele morreu horas depois.
A família contesta parte do relato oficial e afirma que Moore conversava por telefone com um funcionário do ICE que tentava acalmá-lo. A polícia, por sua vez, disse que nenhum dos agentes disparou e que Moore foi quem sacou a arma.
Treinamento também foi reduzido
Apesar dos alertas internos, a expansão do ICE continuou. A agência reduziu semanas do treinamento básico e permitiu que alguns candidatos com experiência anterior na área policial não frequentassem a academia de treinamento.
Dois ex-agentes entrevistados pelo Washington Post afirmaram que parte do processo de integração ocorreu principalmente por e-mail e cursos on-line, sem entrevistas presenciais.
A chegada de novos funcionários também pressionou as estruturas das unidades. Um ex-agente relatou que seu escritório passou de receber um ou dois novos funcionários por vez para até 60 de uma só vez, provocando falta de mesas e espaço de trabalho.
Outros episódios aumentaram as dúvidas sobre o processo. Em julho, o governo anunciou uma revisão dos procedimentos de seleção do ICE depois que um imigrante foi morto a tiros no Maine por um agente contratado durante a expansão. Segundo familiares e pessoas próximas, o agente tinha histórico de violência doméstica e havia sido acusado de agredir várias mulheres.
Uma investigação da Associated Press também identificou novos agentes com problemas financeiros graves, alegações de má conduta e históricos profissionais conturbados.
O ICE, porém, defende seus procedimentos e afirma que aplica rigorosamente as exigências de verificação de antecedentes. A agência também diz que demissões fazem parte de sua rotina e que decisões de pessoal são tomadas quando funcionários não atendem aos requisitos estabelecidos.
Fonte: El País