Quase 200 mil crianças recebem ordem de deportação nos EUA sob Trump
Política migratória do governo amplia separações familiares e detenções de menores. Estudo estima que mais de 300 mil crianças tiveram ao menos um dos pais detido desde 2025, enquanto cortes na assistência jurídica aumentam a vulnerabilidade de imigrantes.
A intensificação da política migratória do presidente Donald Trump tem ampliado os riscos para crianças e adolescentes nos Estados Unidos. Desde o retorno do republicano à Casa Branca, quase 200 mil menores receberam ordens de remoção do país, sendo 70% deles crianças com menos de 13 anos, segundo análise da organização Mobile Pathways.
Estimativas da Brookings Institution indicam que cerca de 205 mil crianças tiveram pelo menos um dos pais detido por autoridades migratórias entre janeiro de 2025 e abril de 2026. Desse total, aproximadamente 35 mil ficaram sem nenhum responsável. Segundo a economista Maria Cancian, da Universidade Georgetown, o número de menores afetados já pode ultrapassar 300 mil, considerando as detenções posteriores.
A mudança nas diretrizes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) também preocupa especialistas. Antes, os agentes deveriam priorizar a reunião de pais detidos com seus filhos ou confirmar a existência de um responsável antes da deportação. A regra foi revogada no primeiro dia do segundo mandato de Trump, e a reunião familiar passou a depender da viabilidade operacional.
O impacto aparece em casos como o de Orlin Hernandez Reyes, de 2 anos, que morreu após ser deixado aos cuidados de um homem quando sua mãe foi detida e deportada para Honduras. O cuidador foi acusado de homicídio e se declarou inocente. Outro episódio que gerou repercussão foi a detenção de Liam Conejo Ramos, de 5 anos, encaminhado a uma instalação migratória no Texas.
Além das separações, o governo reduziu o acesso à assistência jurídica para menores migrantes desacompanhados. Em julho de 2026, um contrato que atendia cerca de 100 instituições foi encerrado, afetando uma rede que contava com aproximadamente 800 advogados. A organização que assumiu parte dos serviços dispõe de cerca de 50 profissionais.
Advogados alertam que crianças sem representação legal têm menos chances de conseguir autorização para permanecer nos Estados Unidos e podem ser devolvidas a situações de risco. Especialistas também afirmam que a falta de transparência sobre locais de detenção dificulta a localização de menores por familiares e defensores.
Embora a situação seja comparada à política de “tolerância zero” adotada por Trump em seu primeiro mandato, analistas avaliam que o cenário atual é ainda mais difícil de contestar judicialmente, já que não há uma diretriz explícita de separação familiar. O resultado, segundo organizações de defesa dos imigrantes, é uma população infantil cada vez mais exposta à detenção, à deportação e à falta de proteção.
Fonte: O Globo