Mãe de família em Massachusetts processa governo Trump e acusa agentes do ICE de agressão diante do filho
Residente permanente nos EUA há mais de 20 anos, Hilda Ramirez Sanan afirma ter sido agredida durante uma abordagem em setembro de 2025. O filho adolescente, que tem autismo, também teria sido retirado à força do carro.
Uma moradora de Chelsea, em Massachusetts, entrou com uma ação judicial contra o governo dos Estados Unidos, alegando ter sido agredida violentamente por agentes federais de imigração diante do filho adolescente. Hilda Ramirez Sanan, que p ossui green card e vive legalmente no país há mais de 20 anos, afirma que foi detida durante uma abordagem do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), em setembro de 2025.
O processo foi apresentado na terça-feira (27), no Tribunal Distrital dos Estados Unidos em Massachusetts. Além de Hilda, os autores da ação são seus dois filhos, ambos cidadãos americanos: Michelle Ramirez Sanan, de 18 anos, e o filho mais novo, identificado no processo pelas iniciais J.R.S., atualmente com 14 anos.
Em comunicado à emissora GBH News, um porta-voz do ICE negou que os agentes tenham tentado prender Hilda. Segundo a agência, a operação tinha como alvo um familiar dela, que possuía acusações anteriores de agressão sexual e um crime sexual envolvendo uma criança. O porta-voz afirmou que os ocupantes do veículo tentaram esconder o homem procurado e que os agentes utilizaram força proporcional para efetuar a prisão.
Os advogados de Hilda contestam essa versão e afirmam que fotos e vídeos apresentados no processo contradizem a justificativa da agência. A organização Lawyers for Civil Rights, que representa a família, divulgou imagens da abordagem em seu site.
Abordagem terminou com retirada forçada do carro
De acordo com a ação, o episódio aconteceu em 26 de setembro de 2025, quando Hilda acompanhava um familiar a uma audiência no tribunal de Chelsea. Ela estava no carro com o filho, então com 13 anos, e dois cunhados.
A cerca de dois quarteirões do tribunal, veículos sem identificação teriam cercado e bloqueado o automóvel. O processo afirma que oito agentes armados e mascarados se aproximaram do veículo e ordenaram que Hilda saísse. Como ela se recusou, os policiais quebraram o vidro, retiraram-na à força e a imobilizaram.
Os agentes também teriam soltado o cinto de segurança e retirado o filho adolescente do carro. O jovem, que tem autismo e dificuldades de comunicação verbal, teria sido mantido contra uma cerca enquanto chorava e questionado sobre sua situação migratória. Segundo a ação, os agentes ameaçaram prendê-lo caso não respondesse às perguntas ou apresentasse documentos.
A filha mais velha chegou ao local durante a abordagem, mas teria sido impedida fisicamente de se aproximar da mãe e do irmão. O processo afirma que, ao informar aos agentes que o adolescente tinha autismo, ela recebeu a ordem de ficar calada.
Ainda segundo a denúncia, um dos agentes chutou Hilda, torceu seus braços para trás e a empurrou ao chão, de rosto contra o solo. Ela afirma ter perdido a consciência durante a ação.
Polícia local pediu verificação dos documentos
A ação relata que policiais locais chegaram ao local e solicitaram que os agentes federais verificassem a identificação de Hilda. Somente depois da intervenção, segundo o processo, os agentes examinaram seus documentos, constataram sua condição de residente permanente e a liberaram.
Uma ambulância levou Hilda e os filhos ao hospital para avaliação médica. A mãe afirma que sofreu lesões nas mãos, pernas e pés e que continua fazendo terapia ocupacional. Exames realizados após a abordagem incluíram radiografias, tomografias e análises de sangue. Médicos também suspeitaram de uma lesão no nervo radial e de uma possível concussão.
O filho adolescente também teria sofrido consequências físicas e emocionais. Segundo a família, ele passou a apresentar dificuldades para caminhar, enxaquecas, crises de choro e pesadelos. Atualmente, toma medicamentos para ansiedade e depressão e recebe acompanhamento de neurologista e fisioterapeuta. A família também busca apoio psicológico para ele.
Em entrevista à GBH News, Hilda afirmou que não tinha pendências com as autoridades de imigração e que ninguém teria ouvido suas explicações ou solicitado seus documentos antes da abordagem. Ela disse que o episódio provocou um trauma profundo em toda a família.
Família pede indenização de US$ 1 milhão
A ação busca indenização pelos danos físicos e emocionais atribuídos à abordagem. Os advogados alegam que a conduta dos agentes violou direitos constitucionais garantidos pela Quarta e pela Quinta Emendas, além de leis federais e normas internas do próprio ICE.
Antes de entrar com o processo, a família apresentou, no fim de 2025, uma reclamação administrativa ao Departamento de Segurança Interna (DHS) e ao ICE, etapa exigida pela Lei Federal de Reivindicações por Danos (Federal Tort Claims Act). Na ocasião, solicitou US$ 1 milhão em indenização.
Segundo os advogados, o governo federal não resolveu a reclamação dentro do prazo de seis meses, o que permitiu que a família levasse o caso à Justiça.
A defesa afirma que pretende responsabilizar o governo pelo sofrimento prolongado dos três familiares. O ICE, por sua vez, mantém a versão de que a operação tinha como objetivo prender outro integrante da família e que os agentes utilizaram força necessária para realizar a abordagem.
Fonte: WGBH