Não vai dar, não vai dar não

Por Roberta Dalbuquerque

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Nasci e passei grande parte de minha infância e juventude em Pernambuco, onde carnaval é coisa séria. Daquele jeito sério de ser do carnaval, vocês sabem. Apesar do meu sangue recifense, não tenho memórias de grandes folias, não sei fazer nenhum passo de frevo sequer, não tenho nenhuma partícula de glíter grudado no corpo agora. Parte de mim sente algum pesar, quase uma culpa por trair a natureza de meu estado, de meus conterrâneos. Não me levem a mal, me emociono ao som do clarim de momo, admiro a beleza do maracatu com seus estandartes para o ar, posso até querer sentir a embriaguez do frevo, mas tudo isso a uma certa distância. Ainda assim, com essa discreta restrição, o carnaval me comove. Cinco dias para um país inteiro viver suas fantasias sem amarras. Sempre bateu cheia de graça em meu ouvido a pergunta: “quem você vai ser?”. E as respostas a ela, claro: “Sábado, eu vou ser um dragão. Domingo, a mulher maravilha. Segunda, um unicórnio.” É só escolher Optar, inclusive, por acompanhar dragões, heróis e unicórnios do sofá da sala, virar um deles em casa mesmo. Por que não? Escolher ausentar-se de todos os sons, mergulhar em uma maratona de filmes, vencer os livros parados na mesinha ao lado da cama. E o mais importante: lembrar-se de que é possível maravilhar-se com algo do qual você não se sente parte. Parece-me que se trata (sempre) de respeitar o seu querer. No carnaval e no resto do ano inteiro. Quem você vai ser é uma pergunta que continua valendo mesmo depois desta semana. Principalmente depois desta semana. Somos donos de nossas fantasias e deveríamos levá-las tão a sério quanto os recifenses levam o carnaval. Da maneira que for, boa diversão queridos! E esqueçam a quarta-feira de cinzas de uma vez por todas, ela não precisa existir.