Governo Lula vê chances remotas de adiar tarifaço dos EUA e avalia enviar missão a Washington
Com sobretaxa de 50% prevista para agosto, Brasil ainda aguarda resposta formal dos EUA e aposta em negociação bilateral com apoio do setor privado
Com a entrada em vigor das novas sobretaxas dos Estados Unidos marcada para 1º de agosto, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e representantes do setor privado brasileiro veem como remota a possibilidade de adiamento das medidas. A sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, a mais alta entre os países afetados, foi anunciada pela Casa Branca como parte de uma política comercial mais protecionista liderada pelo presidente Donald Trump.
Diante da aproximação do prazo, o envio de uma missão oficial brasileira a Washington está em avaliação. A iniciativa incluiria autoridades do Executivo com o objetivo de retomar o diálogo e buscar exceções para a sobretaxa. A expectativa é que essa visita possa ocorrer em paralelo à ida de um grupo de senadores brasileiros aos EUA, entre os dias 29 e 31 de julho.
Desde maio, o governo brasileiro aguarda resposta formal a uma carta enviada aos EUA solicitando a abertura de negociações com base em uma lista de produtos. Para avançar no diálogo, a gestão Trump deveria indicar quais produtos americanos teriam interesse em exportar para o Brasil e quais produtos brasileiros poderiam entrar nos EUA sem a sobretaxa.
Enquanto isso, representantes dos dois países mantêm contatos informais. A estratégia atual, combinada entre governo e setor privado, busca um acordo entre os dois Estados e também mobilizar empresas americanas com interesses no Brasil — uma abordagem já adotada com sucesso por países como México, Canadá e União Europeia.
A possibilidade de retaliação comercial direta, com aumento de tarifas sobre produtos dos EUA, é considerada improvável, já que poderia elevar os custos de produção no Brasil. Em vez disso, o país estuda medidas alternativas, como rever patentes de medicamentos e aumentar tributos sobre filmes e livros americanos.
Fontes ligadas ao governo avaliam que a presença de uma delegação oficial em Washington pode abrir espaço para um entendimento, como fizeram outros países afetados pelo tarifaço de Trump. No entanto, reconhecem que o peso do Brasil na balança comercial americana é pequeno — as exportações brasileiras representaram apenas 1,2% do total importado pelos EUA em 2024.
Além disso, há entraves políticos. As críticas públicas do presidente Lula ao protecionismo dos EUA e à atuação do governo Trump, especialmente em relação ao Judiciário brasileiro, são vistas como um fator complicador. Recentemente, os EUA suspenderam os vistos de sete ministros do Supremo Tribunal Federal, incluindo Alexandre de Moraes, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, alegando perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro — linha de discurso adotada por Trump e aliados.
Fonte: O Globo