Como operava a brasileira investigada pelo FBI acusada de aplicar golpes milionários com joias de luxo nos EUA
Empresária teria conquistado confiança de joalheiros, usado histórias emocionais para adiar cobranças e penhorado peças milionárias na Flórida; mais de 20 empresas relatam prejuízos
Uma empresária brasileira radicada nos Estados Unidos está no centro de uma investigação federal conduzida pelo FBI após ser acusada de aplicar um suposto esquema milionário envolvendo joias de luxo consignadas por joalherias americanas e brasileiras.
Segundo documentos obtidos por vítimas e relatos apresentados às autoridades, Camila Dias Briote teria utilizado uma estratégia sofisticada para conquistar a confiança de empresários do setor de joias de alto padrão antes de desaparecer com peças avaliadas em milhões de dólares.
O caso ganhou repercussão após reportagem exibida pelo Fantástico e vem mobilizando joalheiros nos Estados Unidos e no Brasil. Até o momento, mais de 20 joalherias relataram prejuízos semelhantes às autoridades americanas.
De acordo com as investigações, Camila se apresentava como representante de grandes lojas e consultora de clientes de alto patrimônio, oferecendo intermediações de vendas internacionais em regime de consignação — prática comum no mercado de luxo.
A aproximação seguia sempre um padrão: inicialmente, ela demonstrava profissionalismo, realizava pagamentos parciais e enviava relatórios detalhados sobre supostas vendas. O comportamento gerava credibilidade e incentivava empresários a entregarem volumes cada vez maiores de joias.
Com o passar do tempo, porém, os pagamentos começavam a atrasar.
As justificativas variavam entre problemas bancários, dificuldades operacionais, atrasos de terceiros e emergências pessoais. Ainda assim, segundo vítimas, Camila mantinha contato frequente por mensagens, áudios, fotos e vídeos, alimentando a expectativa de que os valores seriam quitados em breve.
Em alguns episódios, ela teria enviado imagens de grandes quantias em dinheiro e prometido entregas imediatas por meio de motoristas que nunca apareciam.
“Ela construiu confiança antes de tudo desmoronar”
Uma das vítimas é a empresária Michelle Lage, proprietária da Wish Fine Jewelry, LLC, que detalhou em relatório cronológico como a relação comercial evoluiu até o desaparecimento das peças.
Segundo Mia, o contato começou em novembro de 2024, quando Camila afirmou atuar ligada à loja Michelle Farmer, em Palm Beach, e demonstrou interesse em vender joias para clientes de alto padrão.
“Ela mantinha uma postura extremamente profissional, enviava relatórios detalhados e fazia pagamentos compatíveis com as supostas vendas. Isso gerou confiança”, relata.
Ainda conforme o depoimento, todas as entregas de joias aconteciam fora da loja mencionada por Camila. Mesmo após deixar oficialmente o estabelecimento, ela continuou afirmando, durante meses, que ainda mantinha vínculo com a empresa.
A partir do segundo semestre de 2025, os pedidos aumentaram significativamente. Camila alegava atuar como “personal shopper” para casamentos e eventos de luxo e dizia atender clientes milionários.
Foi nesse período que começaram as inconsistências financeiras.
“Os comprovantes não podiam ser verificados, surgiam explicações contraditórias e os atrasos passaram a ser frequentes”, afirma Michelle.
Segundo o relato, o marido de Camila passou então a ser apresentado como responsável direto pelas operações financeiras. Ele participava das tratativas, justificava atrasos e teria atuado ativamente na gestão financeira do esquema, conforme apontado nos processos civis em andamento nos Estados Unidos.
Joias penhoradas por valores muito abaixo do mercado
As investigações do FBI apontam que grande parte das joias consignadas não teria sido revendida a clientes finais, como prometido às vítimas.
Em vez disso, as peças eram levadas para casas de penhor (“pawn shops”) na Flórida, onde eram negociadas por valores muito inferiores ao mercado para obtenção rápida de dinheiro.
Um dos exemplos citados pelas autoridades envolve um colar avaliado em aproximadamente US$ 120 mil que teria sido penhorado por apenas US$ 6 mil.
Até fevereiro de 2026, cerca de 300 peças haviam sido localizadas pelo FBI. Destas, 111 pertenciam à Wish Fine Jewelry, segundo a empresária Mia Lage. Mesmo assim, a maior parte do estoque segue desaparecida.
Vida de luxo e origem familiar conhecida
De acordo com depoimentos anexados às investigações, os recursos obtidos com as joias teriam financiado um estilo de vida luxuoso frequentemente exibido nas redes sociais.
Camila Briote também responde no Brasil a outro inquérito por estelionato relacionado à comercialização de bolsas de luxo, com prejuízo estimado em mais de R$ 4 milhões.
A empresária seria filha do fundador de um tradicional restaurante brasileiro na Flórida, bastante conhecido entre turistas brasileiros em Miami e Orlando. Segundo relatos, o restaurante teria recebido o nome em homenagem à filha.
O pai e o marido também estariam aparecendo como réus em ações civis movidas nos Estados Unidos por vítimas do suposto esquema.
Reunião frustrada e fuga para o Brasil
Em dezembro de 2025, após alertas de outros joalheiros sobre possíveis fraudes semelhantes, vítimas organizaram uma reunião com Camila, seu marido e seu pai.
Camila não compareceu.
Segundo Lage, pai e marido confirmaram na ocasião que ela já não trabalhava mais na loja mencionada anteriormente e afirmaram que centenas de peças estavam armazenadas em uma residência da família.
Eles também reconheceram que diversas joalherias haviam sido afetadas e prometeram organizar a devolução dos itens — o que nunca aconteceu.
No dia seguinte, a família deixou os Estados Unidos rumo ao Brasil.
Desde então, Camila estaria fora do país. Há informações não confirmadas de que ela possa estar no Paraná, mas o paradeiro oficial permanece desconhecido.
FBI investiga possível esquema estruturado
O caso passou a ser tratado em âmbito federal após autoridades identificarem um possível padrão repetido contra múltiplas vítimas.
Até agora:
- mais de 20 joalherias relataram prejuízos;
- ao menos 10 vítimas já prestaram depoimentos formais;
- dezenas de transações em casas de penhor foram identificadas;
- autoridades tentam localizar o restante das joias desaparecidas.
Além da investigação criminal conduzida pelo FBI, vítimas também ingressaram com ações civis.
A defesa de Camila afirma que as acusações não possuem respaldo jurídico e sustenta que não há comprovação de irregularidades em território brasileiro.
Enquanto isso, joalheiros aguardam a recuperação das peças e a responsabilização dos envolvidos.
“O que a gente quer é justiça”, disse uma das vítimas.