Terra deve ultrapassar limite de aquecimento global, alerta relatório da ONU

Mundo está prestes a superar a meta de 1,5°C estabelecida pelo Acordo de Paris; estratégia agora é limitar o aumento da temperatura e tentar revertê-lo nas próximas décadas

Por Lara Barth

Um aviso de calor é emitido pelo Serviço Meteorológico Nacional quando um índice de calor de 105°F ou mais é esperado por pelo menos duas horas em Miami-Dade

A humanidade está prestes a ultrapassar o limite de aquecimento global estabelecido no Acordo de Paris, e a Organização das Nações Unidas (ONU) admite que o mundo perdeu a oportunidade de evitar completamente algumas das consequências mais graves da mudança climática.
Um relatório inédito divulgado na quarta-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) afirma que o planeta deverá superar, nos próximos anos, o limite de 1,5°C de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais, impulsionado principalmente pela queima de carvão, petróleo e gás.
Em vez de abandonar a meta, cientistas e autoridades da ONU defendem uma nova estratégia: limitar o máximo possível o aumento da temperatura e, posteriormente, tentar reduzi-la novamente para abaixo de 1,5°C. O processo, porém, significaria décadas de maior ocorrência de eventos climáticos extremos, elevação do nível dos oceanos, extinção de espécies e derretimento de geleiras e mantos de gelo.
“A humanidade está acelerando para além do limite que evitaria uma catástrofe climática”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres.
A nova estratégia prevê que, depois de ultrapassar o limite, o mundo consiga retornar a níveis mais seguros por meio do abandono dos combustíveis fósseis e do desenvolvimento de tecnologias capazes de retirar dióxido de carbono da atmosfera.
“É uma verificação da realidade. Precisamos conviver com um mundo mais quente”, disse Richard Betts, cientista climático da Universidade de Exeter e um dos autores do relatório. “Mas ainda há muito que podemos fazer para limitar o aquecimento.”
O limite de 1,5°C está prestes a ser ultrapassado
Após a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, a ONU solicitou ao seu braço científico para o clima, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que estudasse diferentes limites de aquecimento.
O objetivo de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis de meados do século 19 tornou-se amplamente aceito depois que cientistas identificaram impactos significativamente mais graves a 2°C de aquecimento — mas que poderiam ser reduzidos se o aumento fosse limitado a 1,5°C.
Atualmente, o planeta já está cerca de 1,4°C mais quente do que no período pré-industrial, segundo estimativas de alguns cientistas. O cálculo, porém, leva em consideração uma média de 20 anos, e não a temperatura registrada em um único ano.
Embora especialistas já afirmassem que não seria possível manter o aquecimento abaixo de 1,5°C, autoridades da ONU sustentavam que essa possibilidade ainda estava aberta. O novo relatório reconhece, finalmente, que o planeta ultrapassará o limite “nos próximos anos”.
No cenário mais otimista, o aquecimento global atingiria um pico de 1,8°C em meados do século, caso os países adotem políticas climáticas ambiciosas. Mantidas as políticas atualmente em vigor, porém, a temperatura global pode chegar a 2,6°C acima dos níveis pré-industriais até 2100.
Assim, em vez de apenas impedir que o aquecimento ultrapasse 1,5°C, a ONU agora orienta os governos a se preparar para um futuro em que o planeta ultrapasse esse limite, atinja um pico e, posteriormente, volte a esfriar gradualmente.
Esse período de aquecimento acima da meta é chamado pelos especialistas de “overshoot”, ou ultrapassagem temporária do limite.
“Vamos deixar muito claro: a meta de 1,5°C continua sendo o objetivo. Mas agora precisamos alcançá-la de uma maneira diferente, vindo de cima”, afirmou Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma.
O limite de 1,5°C não representa “um precipício climático mágico” depois do qual tudo estará perdido, afirmou Andrew Weaver, cientista climático da Universidade de Victoria, no Canadá, que não participou do estudo.
“Cada décimo de grau que conseguirmos evitar ainda significa menos danos”, disse.
Quanto mais baixo for o pico, melhor
Segundo Andersen, a prioridade é limitar o máximo de temperatura atingido e, depois, reduzir o período em que o planeta permanecerá acima de 1,5°C.
Esse período, entretanto, provavelmente durará “muitas e muitas décadas”, segundo Betts.
A cada cinco anos de atraso na redução das emissões, o pico do aquecimento aumenta em pelo menos 0,1°C, afirmou Joeri Rogelj, cientista climático do Imperial College London e coautor do relatório.
“Se agirmos agora, podemos limitar a ultrapassagem”, afirma o documento. “Não será um mundo seguro, mas será mais seguro do que permanecer acima de 1,5°C no longo prazo.”
A avaliação também é vista como um alerta sobre a necessidade de preparação para eventos climáticos extremos que podem afetar regiões muito distantes de seus principais focos.
Furacões como Helene e Milton, por exemplo, mostraram como tempestades tropicais podem provocar destruição centenas de quilômetros continente adentro. O aquecimento do planeta também aumenta o potencial de chuvas intensas e inundações associadas a esses sistemas.
“Este está entre os relatórios climáticos mais sombrios da ONU que já li. Ele transmite uma sensação inequívoca de desespero, frustração e urgência — mas não de resignação”, afirmou Weaver.
Já o cientista climático Bill Hare, presidente-executivo da Climate Analytics, avaliou que o relatório descreve bem a gravidade da situação, mas não apresenta de forma convincente um caminho para revertê-la.
Como será viver em um mundo mais quente?
Os governos também precisarão ampliar os esforços de adaptação às consequências do aquecimento, que atingem principalmente as populações mais pobres.
Isso ocorre porque alguns dos impactos da mudança climática “simplesmente não podem ser evitados”, afirmou Andersen. O relatório chama essa etapa de “enfrentamento e contenção”.
Durante o período em que as temperaturas permanecerem acima de 1,5°C, mais pessoas poderão morrer ou adoecer em consequência do agravamento das mudanças climáticas e dos eventos extremos. A produção de alimentos deverá ser afetada, aumentando o risco de fome, enquanto a escassez de água e os prejuízos econômicos tendem a se intensificar.
Ecossistemas também estarão sob pressão, com espécies como os corais enfrentando risco de extinção.
Os fatores que provocaram as recentes inundações mortais no Nepal, associadas ao deslocamento de uma geleira no Himalaia, são complexos. Ainda assim, Betts afirma que eventos semelhantes devem se tornar mais frequentes.
“Infelizmente, esperamos ver mais situações desse tipo, e é exatamente por isso que precisamos limitar o pico do aquecimento”, disse.
O relatório também alerta para a possibilidade de “pontos de inflexão” climáticos, capazes de desencadear efeitos irreversíveis e em cascata. Entre os riscos estão a perda das camadas de gelo da Antártida Ocidental e da Groenlândia, a destruição da floresta amazônica e o colapso do sistema de circulação do Atlântico que ajuda a manter grande parte da Europa aquecida.
Alguns locais podem se tornar “mais ou menos impossíveis de segurar por meio de seguros ou até mesmo inabitáveis”, afirma o relatório.
A última etapa: retirar carbono da atmosfera
A etapa final da estratégia de ultrapassagem seria resfriar o planeta retirando dióxido de carbono da atmosfera e armazenando-o de forma permanente.
A abordagem tradicional é o plantio de árvores. O relatório, porém, estima que mesmo um amplo aumento da cobertura florestal poderia reduzir a temperatura global em, no máximo, 0,1°C.
Por isso, os autores defendem o desenvolvimento de novas tecnologias de remoção de carbono.
Outros cientistas, entretanto, consideram essas soluções caras e pouco confiáveis.
“Não conseguimos parar o trem desgovernado das emissões globais para evitar 1,5°C de aquecimento”, afirmou Rob Jackson, cientista climático da Universidade Stanford, que não participou do relatório. “Agora, os cenários de ultrapassagem exigem que paremos o trem rapidamente e o façamos andar para trás. É a nossa melhor esperança? Absolutamente. É provável? Absolutamente não.”

Fonte: NBC