“Depois de ter feito a Invenção da Amazônia, que foi o último enredo nosso em que a escola foi campeã, e falava da visão do Júlio Verne e de uma Amazônia que ele nunca conheceu. Desta vez, a gente entra no Lunário Perpétuo”, disse Quintaes em entrevista à Agência Brasil.
Segundo Quintaes, a escolha do enredo partiu de uma informação que ouviu em um programa da Rádio MEC. “A ideia veio enquanto eu dirigia e ouvia um especial do Elomar, um cantador dos anos 70 e 80, na Rádio MEC. No programa, eles citaram o Antônio Nóbrega na parceria com o Armorial do Suassuna [escritor Ariano Suassuna]. Cheguei em casa e fui procurar o trabalho do Nóbrega e me deparei com o Lunário Perpétuo, que é dele. O nome me despertou a curiosidade e fui fazer a pesquisa e descobri o almanaque Lunário Perpétuo e o transformei no enredo."
De acordo com o carnavalesco, o Lunário Perpétuo foi escrito em 1594, pelo espanhol Jerónimo Cortés e foi tomando outras formas ao longo dos anos, beneficiando-se dos equipamentos de imprensa criados pelo alemão Johannes Gutenberg por volta do ano de 1430, que ajudaram na divulgação dos almanaques.
É um livro que orienta sobre astronomia, agricultura, saúde, uso de ervas, mostra qual a melhor época para plantar. “Era um Google da época, e o que torna o nosso enredo mais brasileiro, mais nosso, é que o Lunário Perpétuo chega ao Brasil com a família real. Segundo o folclorista Câmara Cascudo, o Lunário Perpétuo, durante 200 anos, foi o livro mais lido do Nordeste. O Lunário orientou uma série de atividades ligadas à natureza no Nordeste brasileiro e, segundo Câmara Cascudo, também alfabetizou milhares de nordestinos”, revelou.
Com base nessas informações, ele e Diego Araújo começaram a elaborar que a Porto da Pedra vai levar à Passarela do Samba. Foi feita uma divisão histórica da trajetória do que chamam, como o músico e multiartista Antônio Nóbrega, de “livrinho precioso”.
“Abrimos com os alquimistas, que geram todo esse processo, depois falamos da chegada dele [almanaque] ao Brasil, que é a gênese do saber brasileiro, vamos para o presságio dos astros, entramos no Manoel Caboclo, que era um gráfico que difundiu tradições e astrologia. Nesse ponto, já estamos no Nordeste. Falamos da cura da alma, com o Lunário ensinando a curar através das benzedeiras, das folhas, e aí já vemos algo mais contemporâneo, que é o Ariano com o armorial dos folguedos populares, e surge no enredo Antônio Nóbrega, na figura do brincante e divulgador do Lunário Perpétuo. Com isso, mostramos uma coisa cronológica, que começa na era medieval e vem até a atualidade”, disse o carnavalesco, adiantando que Nóbrega, de 71 anos, participará do desfile.
A Porto da Pedra vai abrir, no dia 11 de fevereiro, um domingo, o primeiro dia de desfiles no Sambódromo, mas isso não preocupa Quintaes, que conta com a força da comunidade que envolve a escola. Para ele, a desvantagem é ser a primeira, quando há um público, entre aspas, ainda tentando entender o que vai ser o carnaval 24.
“O carnaval se perpetua porque é inesperado. Às vezes, pensamos que vêm trabalhos ruins e são maravilhosos, ou esperamos trabalhos maravilhosos e vem coisa ruim. Na teoria, é um público frio porque ainda não sabe o que vai ver. Tentaremos minimizar trazendo a comunidade de São Gonçalo para dentro da Marquês de Sapucaí”, disse o carnavalesco, destacando que também o samba enredo ajuda a comunicação com o público.
Quando a escola de São Gonçalo ascendeu ao grupo especial, há 26 anos, também era ele o carnavalesco, que repetiu o feito em 2023. Quintaes revela outra coincidência: o cantor Vantuir também era o intérprete do samba enredo naquela época. “Eu estou reescrevendo a história. Há 26 anos subi com a Porto da Pedra, ganhamos no grupo de acesso, fomos para o grupo especial e depois consegui um quinto lugar. A minha volta e a do Vantuir têm essa mística. Vamos ver se conseguimos repetir a história."
Agora os compositores estão na fase de elaboração dos sambas, e a seleção começa no dia 12 de agosto, quando a Porto da Pedra inaugura a nova quadra, depois de grande reforma. O carnavalesco ressaltou que o enredo foi bem recebido pelos integrantes e pela comunidade do samba. “A expectativa depois da Invenção da Amazônia era grande para saber o que viria depois desse troço tão bacana. Acho que conseguimos, não digo superar, mas, pelo menos, nivelar a Invenção da Amazônia com o Lunário Perpétuo”, afirmou.
Portela