Varejo reage à cultura do descarte com foco em reparo, durabilidade e revenda

Consumidores, reguladores e empresas pressionam o setor a abandonar a lógica do descarte e adotar modelos baseados em reparo, longevidade e economia circular.

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A cultura do descarte, que por décadas sustentou parte do modelo de negócios do varejo, começa a perder força diante de uma mudança de comportamento dos consumidores e de novas exigências regulatórias. Uma análise da consultoria britânica GDR aponta que o setor passa a ser pressionado a repensar produtos, pós-venda e relacionamento com o cliente.

Segundo o estudo, cresce a resistência à substituição constante de itens, o que impulsiona a economia de segunda mão e valoriza soluções ligadas a reparabilidade, durabilidade e revenda. Na prática, marcas e varejistas passam a ser cobrados não apenas pela venda, mas também pela capacidade de prolongar a vida útil dos produtos.

França lidera o movimento regulatório

A França aparece como principal referência nesse avanço. O país foi o primeiro a criminalizar a obsolescência programada, em 2015, e reforçou a legislação em 2026. Hoje, fabricantes de smartphones, laptops, televisores, máquinas de lavar e outros eletrodomésticos precisam exibir índices de reparabilidade.

Esses indicadores avaliam aspectos como facilidade de desmontagem, disponibilidade de peças e acesso à documentação técnica. A lei francesa também passou a incluir um índice de durabilidade, que considera resistência ao desgaste e a possibilidade de evitar obsolescência causada por software.

O modelo ganhou força na Europa após a adoção, em 2024, da Diretiva Europeia de Reparo de Produtos. A norma deverá ser implementada pelos países-membros até julho de 2026, ampliando a pressão sobre fabricantes e varejistas em todo o bloco.

Consumo de segunda mão avança

A mudança regulatória encontra apoio no comportamento do consumidor. De acordo com levantamento do Institut Français de la Mode citado pela GDR, a Vinted se tornou a maior vendedora de roupas da França em volume no primeiro trimestre de 2025, superando Amazon e Kiabi.

O mercado de revenda já representa 11,8% das vendas de vestuário no país, chegando a 17,5% entre consumidores da geração Z. O dado reforça como a compra de produtos usados deixou de ser exceção e passou a integrar o consumo cotidiano, especialmente entre os mais jovens.

Reparo vira estratégia de fidelização

Para a GDR, o reparo e a revenda deixaram de ser apenas práticas associadas à sustentabilidade. Agora, também funcionam como mecanismos de retenção, aumento de recorrência e fortalecimento da relação com o cliente ao longo do ciclo de uso do produto.

A Patagonia é citada como um dos principais exemplos desse modelo. Com o programa Worn Wear, a empresa oferece reparos em loja, kits gratuitos, tutoriais e crédito para troca de peças usadas. A marca ainda opera oficinas itinerantes de reparo em regiões de escalada na Europa e no Reino Unido.

Outras companhias seguem caminho semelhante. A Marks & Spencer firmou parceria com a plataforma Sojo em 2024, enquanto a Levi’s lançou em 2026 o projeto Wear Longer, voltado ao ensino de reparo de roupas para jovens consumidores.

Na França, a fabricante de tênis Veja inaugurou a L’École de la Réparation, escola dedicada à formação em design, sapataria e reparo têxtil. A iniciativa mostra como a lógica do conserto começa a ganhar espaço até mesmo na cadeia de capacitação profissional.

Eletrônicos também entram na lógica circular

O movimento não se limita ao vestuário. No setor de eletrônicos, a iFixit desenvolveu o FixBot, um chatbot com inteligência artificial treinado em manuais técnicos para orientar consumidores em reparos de equipamentos.

Empresas como Fairbuds e Kibu também passaram a apostar em fones de ouvido modulares, projetados para desmontagem e troca de peças. A proposta é reduzir descartes e facilitar a manutenção, alinhando design de produto e sustentabilidade.

Para a GDR, a tendência cria uma oportunidade para que o varejo redefina sua proposta de valor. Produtos com promessa de durabilidade ampliam o potencial de receita por meio de manutenção, reparo e revenda, transformando o pós-compra em parte estratégica da experiência de consumo.