Dívida federal dos EUA supera US$ 40 trilhões pela primeira vez; entenda o impacto

Valor mais que dobrou desde 2017, enquanto despesas com juros se aproximam de US$ 1,1 trilhão por ano e já pressionam o orçamento federal

Por Lara Barth

Dólar EUA

 

WASHINGTON — A dívida federal bruta dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões pela primeira vez na história. Dados referentes a 18 de agosto, divulgados pelo Departamento do Tesouro no dia seguinte, mostram que o total chegou a US$ 40,047 trilhões.

O novo recorde foi alcançado menos de cinco meses depois de a dívida ter atingido US$ 39 trilhões, em março. Em janeiro de 2017, no início do primeiro mandato do presidente Donald Trump, o valor era de aproximadamente US$ 19,95 trilhões. Portanto, a dívida mais que dobrou em menos de uma década.

Segundo a base oficial Debt to the Penny, do Departamento do Tesouro, o valor de US$ 40,047 trilhões está dividido em duas partes:

* US$ 32,266 trilhões são dívidas em poder do público, incluindo títulos comprados por investidores, bancos, fundos de aposentadoria, empresas, governos estrangeiros e pelo Federal Reserve;
* US$ 7,782 trilhões correspondem a dívidas entre órgãos do próprio governo, principalmente valores que o Tesouro deve a fundos federais, como os da Previdência Social.

A dívida em poder do público é considerada pelos economistas a medida mais relevante para avaliar o impacto sobre a economia. Ela equivale atualmente a aproximadamente 100% do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos. Já a dívida federal bruta representa cerca de 126% do PIB, segundo análise do Committee for a Responsible Federal Budget.

US$ 117 mil por morador

Dividido pela população americana, estimada pelo Census Bureau em cerca de 342,8 milhões de pessoas, o total equivale a aproximadamente US$ 117 mil por habitante.

Essa comparação é apenas ilustrativa. Isso não significa que cada morador tenha uma conta individual nesse valor ou que precisará pagá-la diretamente.

Como a dívida cresceu tanto?

A dívida aumenta quando o governo federal gasta mais do que arrecada em impostos, tarifas e outras receitas. Para cobrir essa diferença, chamada de déficit, o Tesouro emite títulos e toma dinheiro emprestado de investidores.

Cerca de um terço do crescimento registrado desde 2017 ocorreu durante os programas emergenciais adotados para enfrentar a pandemia de Covid-19, segundo a Reuters. Os governos Trump e Biden aprovaram trilhões de dólares em estímulos, ajuda a empresas, pagamentos às famílias e medidas de recuperação econômica.

A dívida cresceu aproximadamente US$ 7,8 trilhões durante o primeiro mandato de Trump, sendo mais da metade nos últimos nove meses, durante a pandemia. No governo Joe Biden, o aumento foi de cerca de US$ 8,4 trilhões. Desde o início do segundo mandato de Trump, em janeiro de 2025, foram acrescentados outros US$ 3,8 trilhões.

Esses números mostram quanto a dívida aumentou durante cada governo, mas não significam que a responsabilidade seja exclusivamente do presidente em exercício. O Congresso também aprova gastos, impostos e programas, enquanto decisões tomadas em administrações anteriores continuam produzindo despesas nos anos seguintes.

Déficit já chega a US$ 1,8 trilhão em 2026

Nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026, que começou em outubro de 2025, o governo federal acumulou déficit de US$ 1,8 trilhão. Somente em julho, a diferença entre receitas e despesas foi de US$ 432 bilhões.

O valor acumulado em dez meses já supera o déficit registrado durante todo o ano fiscal de 2025, conforme os dados mais recentes do Tesouro.

Entre os principais fatores estão o crescimento das despesas com Social Security, Medicare, Medicaid e benefícios para veteranos, além de gastos militares, decisões tributárias e o aumento acelerado dos juros da própria dívida.

Juros se tornam uma das maiores despesas do governo

O Congressional Budget Office, órgão apartidário do Congresso, estima que os juros líquidos da dívida ultrapassem US$ 1 trilhão no ano fiscal de 2026, contra US$ 970 bilhões em 2025.

Nos primeiros dez meses do atual ano fiscal, os juros já superaram os gastos com o Medicare e se tornaram a segunda maior despesa do orçamento federal, atrás apenas da Previdência Social. No ano fiscal de 2025, o custo dos juros também ultrapassou pela primeira vez os gastos com defesa nacional.

Esse dinheiro é usado apenas para pagar o custo dos empréstimos e não reduz necessariamente o saldo principal da dívida.

Como isso pode chegar ao bolso dos moradores?

A marca de US$ 40 trilhões não provoca automaticamente aumento de impostos, corte de benefícios ou recessão. No entanto, a continuidade de déficits elevados pode produzir consequências ao longo do tempo.

Quando o governo precisa emitir um volume crescente de títulos, os investidores podem exigir juros mais altos para continuar emprestando. As taxas dos títulos do Tesouro servem como referência para financiamentos de imóveis, veículos e empresas. Por isso, a pressão sobre os juros federais pode contribuir para tornar o crédito mais caro, embora inflação e decisões do Federal Reserve também influenciem essas taxas.

O Government Accountability Office alerta ainda que o endividamento crescente pode reduzir investimentos privados, limitar o crescimento dos salários e deixar o governo com menos recursos para enfrentar recessões, guerras, pandemias e desastres naturais.

Isso significa que os EUA estão falindo?

Não. Os US$ 40 trilhões não vencem de uma só vez. A dívida é composta por títulos com diferentes datas de vencimento, que são pagos ou refinanciados continuamente pelo Tesouro.

O recorde também não representa um calote imediato. Ele funciona como um sinal de alerta sobre a velocidade do endividamento e o espaço cada vez menor do orçamento, já que uma parcela crescente da arrecadação precisa ser destinada aos juros.

O teto legal da dívida está atualmente em US$ 41,1 trilhões, mas o cálculo sujeito ao limite tem ajustes diferentes da dívida bruta divulgada na manchete. Analistas estimam que o Congresso poderá precisar elevar ou suspender novamente esse teto em 2027.

O que pode acontecer nos próximos anos?

O CBO projeta que, sem mudanças significativas nas políticas de arrecadação e gastos, a dívida em poder do público poderá chegar a US$ 56,2 trilhões em 2036, equivalente a 120% do PIB. As despesas líquidas com juros podem alcançar US$ 2,1 trilhões por ano.

Portanto, a marca dos US$ 40 trilhões é principalmente simbólica, mas evidencia um problema estrutural: há mais de duas décadas, o governo americano gasta anualmente mais do que arrecada. Reverter essa trajetória exigiria uma combinação politicamente difícil de controle de despesas, mudanças em grandes programas federais, crescimento econômico e aumento ou reforma de receitas.