Tarifaço de Trump já reduz vendas de empresas brasileiras e expõe desafio para substituir mercado dos EUA
Pequenas e médias empresas estão entre as mais afetadas; especialistas defendem diversificação, mas alertam que nenhum mercado consegue substituir rapidamente o tamanho dos Estados Unidos
O tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump já começa a aparecer no caixa de empresas brasileiras que dependem do mercado americano. Em alguns casos, as vendas caíram 60%; em outros, foram completamente interrompidas.
Na Engemasa, do setor de manufatura, o mercado americano representava 40% do faturamento em 2025. Neste ano, segundo o diretor-geral João Baroni, a participação caiu para zero. Ele afirma que, além das tarifas, a falta de previsibilidade nas compras prejudicou uma relação comercial construída ao longo de décadas.
Na Utilinox, que fabrica máquinas e equipamentos industriais, alguns produtos tiveram queda de 60% nas vendas para os EUA. Segundo o diretor José Neto, o impacto começou ainda no início do ano, com a aplicação de uma tarifa de 50% sobre determinados produtos de aço e alumínio.
Diversificação vira necessidade
Diante do cenário, empresas brasileiras passaram a procurar novos compradores em outros países. Especialistas, porém, afirmam que esse processo não é rápido, principalmente para pequenas e médias companhias, que normalmente têm menos recursos e menor presença internacional.
A América Latina aparece como uma das alternativas, devido à proximidade geográfica e às relações comerciais já existentes. Outros mercados citados incluem Canadá, México, Alemanha, Turquia, África do Sul, Nigéria, Etiópia, Indonésia, Singapura, Índia e China.
A diversificação já começou para parte das empresas atendidas pela ApexBrasil. Segundo o presidente da agência, Laudemir Müller, cerca de 72% das 2,4 mil companhias atendidas que exportam para os Estados Unidos já passaram a atuar em pelo menos um mercado adicional.
Empresas também buscam oportunidades na Ásia. A Utilinox, por exemplo, afirma estar desenvolvendo novos fornecedores na região e ativando linhas de produção.
Entre janeiro e agosto, as exportações brasileiras para a China cresceram 15% em relação ao mesmo período anterior, alcançando US$ 77,07 bilhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior. O crescimento foi semelhante ao registrado nas exportações para a União Europeia, que também avançaram 15%, para US$ 37,29 bilhões.
O problema vai além do tarifaço
Para especialistas, porém, simplesmente trocar o mercado americano por outros destinos não resolve uma dificuldade estrutural da indústria brasileira: a perda de competitividade.
Dados citados pela CNI mostram que a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu de 35,9% em 1985 para 13,7% em 2025. No índice de complexidade econômica, o Brasil passou da 29ª posição em 1995 para a 78ª em 2024.
A avaliação é que investimentos em inovação, produtividade e produtos de maior valor agregado são necessários para que as empresas consigam disputar novos mercados.
A dificuldade é especialmente grande no setor industrial. Muitos produtos são vendidos diretamente entre empresas ou fazem parte de cadeias produtivas específicas. Encontrar um novo comprador pode exigir adaptações, certificações, novas relações comerciais e tempo para conquistar a confiança dos clientes.
Por isso, especialistas ressaltam que diversificar não significa simplesmente substituir os Estados Unidos por outro país.
Governo oferece linhas de apoio
O governo brasileiro também ampliou medidas para ajudar empresas afetadas pelas tarifas americanas. O Plano Brasil Soberano, retomado em 2026, criou linhas de financiamento para exportadores e fornecedores afetados por tarifas comerciais, além de empresas de setores considerados relevantes para o comércio exterior.
A legislação prevê até R$ 15 bilhões em recursos para essas linhas, com possibilidade de ampliação em mais R$ 13,5 bilhões, conforme as regras estabelecidas.
Também estão disponíveis mecanismos como o Seguro de Crédito à Exportação e o Proex, além de medidas para facilitar a utilização do regime de drawback, que reduz a carga tributária sobre insumos usados na fabricação de produtos destinados à exportação.
As medidas podem oferecer fôlego financeiro no curto prazo, mas especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que o desafio principal é estrutural: reduzir a dependência de poucos mercados e aumentar a competitividade da indústria brasileira para que ela consiga conquistar novos consumidores de forma sustentável.
Fonte: G1