Quais as semelhanças e diferenças do ataque ao Capitólio nos EUA x Praça dos Três Poderes no Brasil?

Contestação do resultado eleitoral, prédios-alvo das invasões, violência, vandalismo e incentivo se assemelham.

Por Arlaine Castro

Manifestantes invadiram o prédio do Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto no dia 8 de janeiro de 2023.

Assim como os manifestantes que invadiram o Capitólio em janeiro de 2021 nos Estados Unidos quando da confirmação da eleição presidencial que elegeu Joe Biden, parte dos brasileiros que também não aceita os resultados das urnas que deu vitória a Luís Inácio Lula da Silva cometeu atos de vandalismo na Praça dos Três Poderes em Brasília.

Nos dois acontecimentos, há mais semelhanças do que diferenças: contestação do resultado eleitoral, prédios-alvo das invasões, violência e vandalismo, incentivo ligado direta ou indiretamente pelos presidentes que perderam as eleições.

Assim como nos EUA, os apoiadores do então presidente republicano Donald Trump não aceitavam a sua derrota nas urnas para o democrata Joe Biden , os apoiadores de Bolsonaro não aceitam o resultado das eleições de outubro. Tanto os invasores americanos quanto os brasileiros são ligados à direita e defendem pautas conservadoras.

Uma diferença do ato no Brasil foi que o ataque ocorreu em um domingo e os prédios estavam completamente vazios. Ao contrário do Capitólio nos EUA, que estava repleto de parlamentares e servidores, além do então vice-presidente, Mike Pence, em meio à realização de uma sessão oficial.

Nos dois casos, os radicais agiram com violência e houve quebra-quebra. Enquanto nos EUA os radicais invadiram e depredaram gabinetes, no Brasil, os vândalos chegaram até o plenário do Senado e o do STF, onde promoveram depredação, além de terem ido bem perto do gabinete presidencial.

O prejuízo ao patrimônio público está calculado em ao menos R$ 3 milhões apenas na Câmara dos Deputados, que junto com o Senado Federal compõe o Congresso Nacional.

Apoio EUA x Brasil

Os EUA vão compartilhar com Brasil a experiência da investigação do Capitólio que resultou em mais de 950 prisões e pelo menos 350 investigados já foram condenados. O Ministério Público Federal vai enviar representantes aos Estados Unidos para conversar com as autoridades americanas que investigaram a invasão ao do Capitólio.

No Brasil, a Procuradoria-Geral da República está à frente das tratativas para que a cooperação comece o quanto antes. Há previsão de reuniões, por exemplo, com oficiais do Departamento de Justiça. A lista de presos por invasão à Praça dos Três Poderes chega a 736 nomes. Segundo a Secretaria de Administração Penitenciária do DF (Seap-DF), 1.028 detidos já ingressaram no sistema prisional do DF, até a manhã de quarta. Do total, 637 homens foram levados ao Centro de Detenção Provisória 2, no Complexo da Papuda. Outras 391 mulheres foram encaminhadas à Penitenciária Feminina do DF.

Reação da classe política

A classe política brasileira demonstrou maior coragem na defesa da democracia após os ataques de Brasília do que os republicanos americanos depois da invasão do Capitólio. A avaliação é do brasilianista Christopher Sabatini, especialista sênior da Chatham House, instituto de política internacional com sede em Londres, dada em entrevista à BBC.

Ele cita como exemplos do compromisso com a democracia o fato de que muitos governadores — mesmo os que fazem oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), terem marchado com o presidente em direção ao prédio do Supremo Tribunal Federal (STF) na segunda-feira, um dia após os ataques.

Sabatini observa que até mesmo o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB) — aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro — acatou sem reservas a suspensão de 90 dias do cargo imposta pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF.

Reações como essa não aconteceram nos Estados Unidos após a invasão do Capitólio. Na ocasião, muitos políticos republicanos se recusaram a criticar os manifestantes, analisa.

Apoio internacional

Estados Unidos, União Europeia e ONU expressaram apoio ao governo brasileiro. A repercussão internacional da invasão à Praça dos Três Poderes é vista como preocupação global sobre a realidade enfrentada e o futuro da democracia não só no Brasil, mas em todo o mundo.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) também manifestou apoio ao governo brasileiro e condenou os atos antidemocráticos em Brasília.

A declaração foi seguida pelo embaixador do Canadá, Hugh Adsett, que frisou que as eleições no Brasil ocorreram de forma livre e justa.